Bases da fé

TEMAS:
1. ‘Justificação por Graça e Fé’ versus ‘justificação pelo consumismo’
2. Como podemos conhecer a Deus?
3. Ser Igreja é uma oportunidade privilegiada de participar...
4. Palavra e Sacramentos: os meios da graça
5. Identidade Confessional Luterana: mostrando a nossa cara!
6. Missão: um compromisso com o testemunho do Evangelho
7. Ecumenismo: mantendo a unidade na diversidade     
8. Sacerdócio Geral de Todos os Crentes: a vocação de todo cristão    
9. Ministério: para servir e cuidar
10. REFERÊNCIAS
_________________________________________________

1. ‘Justificação por Graça e Fé’ versus ‘justificação pelo consumismo’
       A verdade da justificação pela graça misericordiosa de Deus em Jesus Cristo, abraçada na fé pela pessoa cristã, é a mensagem central de toda a Escritura (Rm 1.17). Lutero redescobriu esta verdade bíblica, a qual diz que Deus nos amou profundamente a ponto de nos enviar seu filho unigênito, para dar a salvação e a vida eterna (Jo 3.16).  Pela justificação, Deus nos acolheu para cuidar de nós e para consolidar seu reino de justiça e paz (Rm 5.1ss).
       Infelizmente, as pessoas pensam que a doutrina da justificação é algo do passado e que está desatualizada. Em contrapartida, os meios de comunicação nos induzem a acreditar que somente seremos importantes e teremos valor se produzirmos, comprarmos ou consumirmos. A mídia impressa, radiofônica e televisiva, cotidianamente, adentra em nossas mentes com a propaganda do consumo desenfreado e com a ideologia da valorização pela apropriação e obtenção de bens diversos. Conforme esta lógica, somente serei gente e terei identidade ou valor (estarei justificado) caso produza, compre ou consuma.
       Através da globalização, essa forma de pensar afeta a todos os seres humanos. Tanto as pessoas que vivem nas metrópoles como as que residem em ambientes interioranos são influenciadas e subjugadas por essa ideologia da justificação pelos bens de consumo. Não são mais apenas as obras que nos dignificam e justificam: é preciso ter e consumir para ser alguém na vida. Para ter identidade e dignidade, é necessário possuir (as religiões pós-modernas falam em “apoderar-se”).
       O exemplo acima ilustra a constante necessidade de pregar sobre a doutrina bíblica da justificação por graça e fé. Ela sempre será atual e relevante. Enquanto viver no tempo da esperança escatológica, a igreja deve refletir e discernir corretamente acerca de como somos aceitos sem distinção e de como somos dignificados verdadeiramente apenas por Deus.
       Conforme a compreensão luterana de justificação, compreendo e creio que somos aceitos, amados, cuidados e valorizados por Deus sem a necessidade de esforço pessoal ou de qualquer outro esforço humano para alcançar essa dádiva. O mundo, a vida diária, o comércio, o mercado de trabalho e tantas outras esferas sociais teimam em dizer o contrário, ou seja, que só seremos “alguma coisa” por intermédio da força própria ou mediante a obtenção de recursos diversos. Por sua vez, a Bíblia proclama que somente Deus, pela obra redentora de Cristo, pode nos dar a dignidade devida para viver de forma plena e saudável. Isto tudo vem a nós por graça, através da fé (Mt 20. 1-16). Não são nossas ações, bens de consumo ou conquistas pessoais que nos fazem viver dignamente. É Deus, através de Jesus Cristo, que nos resgata para uma nova vida (Lc 15. 11-24).
       A justificação por graça e fé é o ato primeiro de cuidado que Deus tem por nós. Deus nos ama e cuida de nós. Esta verdade é testemunhada em toda a Escritura. Em Romanos 3.23-25a o apóstolo Paulo narra que todos nós pecamos e carecemos do cuidado e do amor de Deus.[1] Nós somos justificados, isto é, tornados dignos, única e exclusivamente pela obra amorosa de Deus em Jesus Cristo. Ele nos torna justos e santos, mesmo que ainda estejamos envoltos por uma realidade ímpia e pecadora, que continua exercendo influência sobre nós (Rm 7. 17-20; 1Jo 1.8).[2]
       Nós, como IECLB, devemos sempre reafirmar e reinterpretar a doutrina da justificação por graça e fé. De acordo com Lutero e sua teologia da cruz, a correta compreensão da justificação é um critério indispensável para o ‘ser’ e ‘agir’ da igreja. Sem esta compreensão, perdemos o rumo e caminhamos por nossas próprias obras e ações. Sem ela nos distanciamos do cuidado e do amor de Deus por nós. Este amor nos vocaciona e incumbe para servir a Deus no mundo com boas obras, em resposta de gratidão à sua ação primeira.

2. Como podemos conhecer a Deus?
       Todos nós, em algum momento de nossa vida, nos perguntamos: “quem é Deus?” Antes de perguntar quem é Deus, devemos reconhecer o que Ele fez por nós. Ao reconhecermos nossa situação de pecadores justificados por Deus, então podemos falar sobre Deus. Não o conhecemos simplesmente através de sua essência, mas primordialmente através de sua obra em nosso favor.
Martim Lutero, em sua reflexão bíblica, redescobriu que Deus se revela a nós (se dá a conhecer) mediante a cruz de Cristo. Deus não quer ser reconhecido unicamente por intermédio de sua natureza ou atributos divinos e gloriosos. Ele se mostra, preferencialmente, em sua obra por nós, na cruz e no sofrimento de Cristo. Se queremos conhecer e saber quem é Deus, então devemos olhar para a cruz de Cristo e para tudo o que Ele fez em nosso favor (1Co 1. 18-25).
       A partir da justificação, pelo batismo, na morte e ressurreição de Cristo, podemos acertadamente saber quem é Deus, pois Ele se revelou total e completamente a nós (Jo 17.7, 25-26). Mesmo que não consigamos captar a revelação total de Deus, por conta de nossas debilidades,[3] ainda assim conhecemos Deus e o conheceremos plenamente no Reino vindouro (1Co 13. 9-10). Por esta razão podemos confessar que “[...] há uma só essência divina, que é chamada Deus e verdadeiramente é Deus. E, todavia há três pessoas nesta única essência divina, igualmente poderosas, igualmente eternas, Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo [...]”.[4] Cremos no Deus-Triúno que 1) criou a nossa vida, 2) salvou-a do pecado e da morte e  3) continua revigorando esta nova vida em bondade e amor:
1) Deus se revelou a nós como Deus-Pai, o Criador, que “[...] cria a nós, o universo e tudo o que nele existe; cremos que somos sua propriedade.”[5] Ele nos capacitou para viver em harmonia com as outras criaturas (Gn 1; Sl 8). Diariamente Ele nos concede o necessário para viver de forma digna e fraterna. Mesmo sem merecermos Ele nos protege e nos ampara, pois é Deus misericordioso. Pela dádiva do Batismo, a cada novo dia, devemos ser gratos a Deus pela vida que Ele nos deu.[6]
       2) Deus se revelou a nós como Deus-Filho, o Salvador, que “[...] nos salva por Jesus Cristo. Pelo seu poder ele nos liberta do campo de força do pecado.”[7] (Rm 5.12-21). Pela ação salvadora de Jesus Cristo na cruz, não sou mais escravo do pecado e da maldade. Não preciso mais justificar-me diante de Deus através de obras ou méritos próprios. Ele mesmo tornou-me justo, me deu a salvação e a vida eterna, por meio de seu sangue e sua inocente paixão e morte. Através de Cristo, podemos saber que estamos inseridos na ressurreição e na vida eterna por graça, através da fé. Isto é obra de Deus em Jesus Cristo.[8]
       3) Deus se revelou a nós como Deus-Espírito Santo, o Santificador, que “[...] nos faz renascer para uma nova vida e nos torna seus discípulos e suas discípulas.”[9] (At 1.8). Através da ação do Espírito Santo, somos chamados para viver a fé em amor, com responsabilidade. Ele nos concede dons e habilidades que devem ser utilizados na proclamação do reinado de Deus. O Espírito nos chama, reúne, ilumina e santifica, para darmos testemunho da boa nova do Evangelho.[10] A partir de sua ação surge a igreja.  
       A este Trino Deus, que é, ao mesmo tempo, Pai e Filho e Espírito Santo, devemos ser gratos por toda a nossa vida, com louvor, honra e adoração (Ap 4.11; Hb 13. 7-8; Fp 2. 10-11).

3. Ser Igreja é uma oportunidade privilegiada de participar...
       Devemos ser gratos a Deus. Devemos honrar e louvar seu santo nome por intermédio de uma vida orientada por sua Palavra. Por isso, através do Espírito Santo, Ele nos chama e nos reúne para sermos Igreja de Jesus Cristo.
       Conforme podemos ler em Atos 2. 1-4, em Pentecostes os seguidores de Jesus Cristo estavam todos reunidos em uma casa, mas escondidos, com medo e trancafiados. Desde o momento em que o Espírito Santo de Deus age sobre eles, então não ficam mais escondidos, trancafiados e com medo. Pelo contrário, recebem força e ânimo do próprio Deus para dar testemunho da salvação que Deus nos concedeu em Cristo.
       A partir do testemunho apostólico, percebemos que igreja somos todos nós, pessoas chamadas para ser família (Gl 6.10; Ef 2.9) e povo (1Pe 2. 9) de Deus no mundo. E, acima de tudo, somos integrantes do corpo de Cristo. Estamos unidos num mesmo corpo, num mesmo organismo (1Co 12.12-20). Cada um de nós, individualmente, é chamado no batismo, para pertencer a este corpo, a esta igreja. Todos nós temos dons e habilidades, presenteados pelo próprio Deus, que devemos colocar a serviço do Evangelho.
       Baseados neste testemunho bíblico, como herdeiros da Reforma, afirmamos que “[...] a igreja cristã, propriamente falando, outra coisa não é senão a congregação de todos os crentes e santos [...][11]. E, a verdadeira igreja existe onde, entre as pessoas crentes, congregadas e reunidas pela ação do próprio Deus, “[...] o evangelho é pregado puramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho.”[12]
Martim Lutero expressa que a Igreja (ekklesía), reunida e motivada pela ação do Espírito Santo, é “creatura evangelii”. É o próprio Evangelho que dá sustentação ao ‘ser’ e ‘agir’ da igreja. Não podemos dizer que Jesus é o fundador da igreja, não obstante Ele é o seu “fundamento” (1Co 3.11).
       Precisamos ainda diferenciar entre igreja visível e invisível. Igreja visível são as expressões da única e exclusiva Igreja de Jesus Cristo, a saber, a igreja invisível. As instituições e associações religiosas não podem arrogar a si mesmas o direito exclusivo do “ser igreja”. Isto significaria abandonar a prerrogativa de testemunha, discípula e seguidora de Cristo. Por isso mesmo, a IECLB, dentro do espírito ecumênico da missão de Deus, entende-se como testemunha da única igreja real.  A IECLB[13] é uma expressão visível da Igreja de Jesus Cristo.
       Como Igreja, entendemos que somos chamados pelo Espírito Santo para dar testemunho da verdade do Evangelho. Somos instrumentos de Deus para proclamar a salvação que nos foi concedida. E, respondemos ao chamado de ser igreja por crermos firmemente que, nesta comunhão, temos a oportunidade privilegiada de participar da missão de Deus.

4. Palavra e Sacramentos: os meios da graça
       Em Rm 10.17 o apóstolo Paulo escreveu que “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo”. Entendemos que, como Igreja, somos congregados em torno de um centro comum de culto, pregação e celebração dos sacramentos, que nos dão testemunho da obra salvadora de Cristo em nosso favor.
       A pregação da Palavra de Deus - do Evangelho - tal como os sacramentos, é meio com o qual a graça nos atinge (1Co 1.22b). Da correta pregação do Evangelho depende o bom andamento e a boa condução da igreja. Igreja verdadeira é aquela que prega e dá testemunho da salvação exclusivamente pela graça de Deus na fé. A Palavra de Deus é corretamente pregada e vivida quando sabemos discernir entre Lei e Evangelho, juízo e graça. Conforme Lutero, toda a interpretação da Escritura depende desta correta análise e discernimento.
       Os sacramentos são os meios visíveis que Deus usa para nos alcançar com sua graça e seu amor incondicional. O Sacramento pressupõe a coexistência de três elementos: 1) uma ordem clara de Deus, fundamentada nas palavras de Jesus (Mt 28.19; Mt 26. 26-28), 2) uma promessa de graça (presente) de Deus recebida na fé (Mc 16.16; Mt 26.28) e 3) um sinal visível (At 8.36, Mt 26.26-28). A partir do testemunho das Escrituras, reconhecemos dois sacramentos, a saber, o Batismo e a Ceia do Senhor.
       O Batismo, que é a Palavra de Deus unida ao elemento visível da água, nos fala da promessa de recebimento da graça salvadora em Jesus Cristo. Está fundamentado em Mt 28. 18-20. Por meio do batismo, em nome do Trino Deus, somos chamados a uma nova vida, na qual Deus nos torna seus filhos e suas filhas. Somos inseridos na vida, morte e ressurreição de Cristo por nós (Rm 6. 3-4). Somos marcados por sua cruz. Batismo não é ponto de chegada (fui batizado). É ponto de partida que se perpetua num processo diário de arrependimento e vida nova (sou batizado). Como rito, acontece somente uma vez (Ef 4.5), mas deve ser rememorado na fé a cada novo amanhecer. O batismo nos dignifica e vocaciona para o serviço do Evangelho.
       A Ceia do Senhor, fundamentada nos relatos dos evangelhos[14] e em 1 Co 11. 23-26, é a celebração da comunhão mais íntima possível com Deus e com as pessoas irmãs na comunidade. Através da Ceia do Senhor podemos receber, verdadeiramente, ao próprio Cristo ‘com’, ‘em’ e ‘sob’ os elementos do pão e do fruto da videira. Ela nos faz recordar que Jesus Cristo morreu e ressuscitou em nosso favor e voltará no final dos tempos para completar a edificação de seu reino eterno e justo. Assim, através da comunhão de mesa, estamos sentindo um antegozo do banquete eterno, preparado para todos os filhos e filhas de Deus. Ao celebrarmos a Ceia do Senhor, somos alimentados pelo próprio Cristo. Ele nos concede perdão dos pecados, nova vida e salvação. Confiamos plenamente nessa promessa divina e buscamos estender a comunhão da Ceia do Senhor para as demais mesas nas quais nos sentamos, onde também sentam pessoas que carecem de comunhão e amor[15] (Mt 25. 35-36).

5. Identidade Confessional Luterana: mostrando a nossa cara!
       Nós, da IECLB, juntamente com outras Igrejas Cristãs, somos herdeiras da Reforma do século XVI, iniciada por Martim Lutero. Entendemos que somos “Igreja de Jesus Cristo: universal, una, santa e apostólica.”[16] Confessamos nossa fé no Trino Deus e nos baseamos exclusivamente na Bíblia como norma básica e indissolúvel da igreja. Reafirmamos as confissões dos três símbolos ecumênicos (Apostólico, Niceno e Atanasiano) e adotamos, como referenciais de interpretação das Escrituras, a ‘Confissão de Augsburgo’ inalterada e o ‘Catecismo Menor’ de Martim Lutero.
       Nossa compreensão teológica baseia-se na teologia da cruz de Martim Lutero, que nos auxilia a interpretar a obra salvadora de Cristo em nosso favor. Na teologia da cruz somos confrontados com nossa realidade vivencial e motivados a reconhecer que Deus é Deus. “Devemos temer e amar a Deus e confiar nele acima de tudo”,[17] como está escrito na interpretação que Lutero faz do primeiro mandamento.
       A confessionalidade luterana afirma a exclusividade dialética de quatro pilares fundamentais para entender a obra salvadora de Deus (sola gratia, sola fide, sola scriptura e solus Christus): 1) somos salvos somente pela GRAÇA de Deus em nosso favor; 2) A salvação é recebida e apreendida somente na FÉ, que é dada e presenteada por Deus mesmo, sem ser, portanto, obra humana; 3) somente a ESCRITURA é o meio cognitivo que nos faz conhecer e entender o conteúdo desta salvação; e 4) Somente CRISTO é o conteúdo e o mediador da salvação. Estes quatro princípios são exclusivos e absolutos e, paradoxalmente, se interrelacionam num processo de simultaneidade.
       A partir destas bases, nos organizamos como Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil: a) Somos Igreja Evangélica porque temos na Escritura o testemunho da obra de Cristo em nosso favor; b) Somos de Confissão Luterana porque somos herdeiros de uma caminhada como igreja, que nos une a tantas outras igrejas irmãs na fé; c) Somos Igreja no Brasil, porque o Evangelho é contextual e deve ser refletido à luz da realidade. Este Evangelho que salva e concede vida nova nos impele a dar testemunho em nosso contexto.
       Ter identidade confessional luterana é mais do que simplesmente dizer ou repetir determinadas ordens ou doutrinas. Nós temos uma cara! Temos um jeito de viver a fé a partir da redescoberta do Evangelho. Na IECLB, essa cara tem uma estrutura sinodal, celebrações que nos caracterizam, templos que contam histórias; hinos, orações e outros tantos elementos que expressam nossa forma de ser luteranos e que devem ser respeitados. Mas, o fundamental não está nisto. O fundamental é a proclamação do Evangelho da boa-nova da salvação em Cristo. Esta é nossa verdadeira cara!

6. Missão: um compromisso com o testemunho do Evangelho
       A partir de Mt 28.18-20, reconhecemos que a missão é de Deus (Missio Dei). Ele, através de Jesus Cristo, nos insere em seu projeto missionário que consiste em proclamar, a todos os povos, a boa nova da salvação (Mc 13.10). Ser igreja de Jesus Cristo, necessariamente, é ser igreja missionária. Se abandonarmos essa diretriz, logo não somos igreja, pois negligenciamos um mandato do ‘ser igreja’.[18]
       Atualmente a IECLB está diante de uma realidade desafiadora. Precisamos manter nossas bases teológicas, afirmando a doutrina da justificação por graça e fé diante de um mundo extremamente individualista, egocêntrico e consumista. Precisamos participar da missão de Deus, sendo uma Igreja que cuida e zela pela fé verdadeira, pela justiça e pela vivência real e fraterna do Evangelho.
       Em anos anteriores falávamos em “criar e recriar comunidades”. Na atualidade, reafirmamos este compromisso e nos preocupamos com a continuidade da igreja através da Evangelização, da Comunhão, do Serviço (Diaconia) e da Liturgia, que são eixos para nosso agir missionário. Sabemos que a missão é, simultaneamente, ação interna e externa. Através da missão damos testemunho de nossa nova realidade em Cristo (Mt 5. 13-16).
       Como Igreja, inserida em contextos específicos, temos que participar da missão, sabendo reconhecer nosso espaço e sabendo inserir-nos de modo incisivo no processo de transformação da sociedade, pela promoção do Evangelho. De todos os modos, necessitamos entender nossa tarefa missionária dentro de um contexto ecumênico.[19]

7. Ecumenismo: mantendo a unidade na diversidade
       A IECLB, como Igreja constituída, participa da ecumene, que nos “vincula em fé e ação com todas as igrejas do mundo que confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador.”[20] Nossa postura ecumênica se baseia no testemunho das Escrituras. Em Jo 17. 20-23 o próprio Jesus Cristo pede em favor da unidade. Ele roga ao pai que todos sejam um e que vivam em unidade. O apóstolo Paulo, escrevendo à comunidade de Corinto, pede que não haja divisões no corpo de Cristo. Ele intercede para que todos cooperem uns com os outros, se cuidem mutuamente e mantenham a unidade (1Co 12.25-27).
       A partir do testemunho bíblico, compreendo que ser ecumênico não é opção. É algo inerente à vida da Igreja que se entende como expressão da igreja invisível. No ecumenismo devemos afirmar nossa identidade, superar as divergências e praticar o diálogo mútuo e fraterno. Ser ecumênico é manter a dádiva da unidade na beleza da diversidade.

8. Sacerdócio Geral de Todos os Crentes: a vocação de todo cristão
        A partir do testemunho de 1Pe 2.9ss (e outros, como Ap 1.6; 5.10), Lutero acentuou que desde o batismo todo cristão é sacerdote e somente Cristo é nosso Sumo-Sacerdote (Hb 4.14), pelo qual temos acesso a Deus, o Pai. Lutero enfatizou que através do Sacerdócio Geral cumprimos com um serviço de gratidão a Deus, a saber, o de amar ao nosso próximo. Por isso ele medita nas Escrituras e conclui que devemos mutuamente ser como “um Cristo para o próximo”. No batismo, homem e mulher recebem o privilégio (a dignidade) e a tarefa (o compromisso) de divulgar o Evangelho em atos e palavras. Devemos proclamar o Evangelho com nosso tempo, dons, talentos e bens.[21]
       Nesta compreensão do batismo como vocação para o Sacerdócio Geral, compreendemos que na comunidade deve haver uma participação ativa de todos os seus membros. Todos devem dar testemunho do Evangelho em todos os ambientes nos quais estão inseridos (lar, trabalho, escola, lazer, etc.).
No Sacerdócio Geral, todos compartilham dos mesmos direitos e deveres. Por isso, não é legítimo alegar que haja uma diferença hierárquica entre ministros especializados (ordenados) e leigos. Isso não é postura luterana. Ainda assim cabe afirmar que o Sacerdócio Geral não é um Ministério. É um serviço espontâneo da pessoa cristã na comunidade, como resposta à graça misericordiosa de Deus.

9. Ministério: para servir e cuidar
       Mesmo que exista o Sacerdócio Geral (o serviço espontâneo), a igreja precisa se organizar e definir a sua atuação através do Ministério (serviço estruturado). Estas duas esferas – Sacerdócio Geral e Ministério – não estão em conflito ou competição entre si. Antes, o segundo está em função do primeiro. A tarefa do Ministério é auxiliar ao Sacerdócio Geral, recordando-o da verdade do Evangelho, para que todos possam fielmente cumprir com o mandamento do amor que lhes foi confiado.
       No Novo Testamento, não encontramos um termo que possa equivaler-se à palavra Ministério. O NT sempre vai falar de “serviço” (Rm 12.7; 2Co 3.8-9; 9.12). Ao lado do “serviço espontâneo”, encontra-se o “serviço estruturado” que a comunidade incumbe e delega, através de funções específicas (Gl 1.1; At 11.30, Fp 1.1 e outros.)
       A Confissão de Augsburgo, no Art.5º, fala deste “serviço”, chamando-o de Ministério Eclesiástico: “para conseguirmos esta fé, instituiu Deus o ofício da pregação, dando-nos o evangelho e os sacramentos, pelos quais, como por meios, dá o Espírito Santo, que opera a fé [...]”.[22] Isto mostra que o Ministério é de Deus. Ele é um serviço que foi confiado à comunidade. Por isto é que a comunidade pode escolher pessoas que a auxiliem nesta tarefa.
       A rigor, há um só Ministério. Mas, isto não impede que ele seja desdobrado em várias ênfases, funções, cargos e serviços, de acordo com a necessidade do contexto (1Co 12. 4-6), seja ele local ou geral. Na IECLB entendemos isto a partir do “Ministério Compartilhado”. Por isso, de acordo com o Ministério Compartilhado, temos o Ministério com Ordenação desdobrado em quatro ênfases: o pastoral, o diaconal, o catequético e o missionário.
       Todas estas quatro ênfases do único Ministério Eclesiástico têm funções e atribuições específicas. Todas trabalham em diálogo entre si e com as demais pessoas colaboradoras e líderes da comunidade, fomentando a formação e a educação cristã continuada. Essas ênfases devem trabalhar em equipe. A função do Ministério Compartilhado é dar testemunho do Evangelho.
       A igreja tem a tarefa de zelar pela pura e correta pregação do Evangelho e pela administração dos sacramentos. Por isso ela chama, capacita e envia pessoas que irão, legitimamente,[23] servir ao Evangelho através do Ministério com Ordenação.

REFERÊNCIAS


[1] Confissão de Augsburgo. In.: Livro de Concórdia: as Confissões da Igreja Evangélica Luterana. 6ª. ed. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2006. P. 30.
[2] Simultaneamente justos e pecadores.
[3] ‘Deus revelatus’ e ‘Deus absconditus’.
[4] Confissão de Augsburgo, 2006. P. 27.
[5] IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL. Nossa Fé – Nossa Vida: guia da vida comunitária na IECLB. 5ª ed. São Leopoldo: Sinodal, 2007. p. 5.
[6] LUTERO, Martim. Catecismo Menor. 13ª ed. São Leopoldo: Sinodal, 2008. p. 10.
[7] Nossa Fé – Nossa Vida, 2007. p. 5.
[8] LUTERO, 2008. p. 11.
[9] Nossa Fé – Nossa Vida, 2007. p. 5.
[10] LUTERO, 2008. p. 11.
[11] Confissão de Augsburgo, 2006. P. 32.
[12] Confissão de Augsburgo, 2006. P. 31.
[13] A IECLB“é o convívio de pessoas por ela batizadas ou admitidas, diferentes umas das outras, todas elas, no entanto, chamadas para viver seu Batismo.” Nossa Fé – Nossa Vida, 2007. p. 5.
[14] Mt 26. 26-30; Mc 14. 22-26 e Lc 22. 14-20.
[15] A palavra AMOR (ágape), muitas das vezes entendida como ‘solidariedade’, em nossa visão de igreja, quer ser ressignificada pela palavra CUIDADO para melhor expressar nosso compromisso fraterno da Ceia do Senhor.
[16] Nossa Fé – Nossa Vida, 2007. p. 6.
[17] LUTERO, 2008. p. 5.
[18] Confissão de Augsburgo, 2006. P. 31: “[...] igreja cristã, que é a congregação de todos os crentes, entre os quais o evangelho é pregado puramente [...]”.
[19] Nossa Fé – Nossa Vida, 2007. p. 4.
[20] Nossa Fé – Nossa Vida, 2007. p. 6.
[21] Nossa Fé – Nossa Vida, 2007. p. 30.
[22] Confissão de Augsburgo, 2006. p. 30.
[23] Confissão de Augsburgo, 2006. p. 34.