PARA ONDE NOS CONDUZIRÃO AS ELEIÇÕES?

FIM DA POLARIZAÇÃO PT–PSDB – TAMBÉM DAS “ALIANÇAS ESPÚRIAS”?
OU: A PESQUISA E O DEBATE.
OU AINDA: PARA ONDE NOS CONDUZIRÃO AS ELEIÇÕES?

A primeira pesquisa eleitoral após a oficialização da candidatura presidencial de Marina, registrou sua ascensão meteórica (se é que meteoro sobe...), mais que triplicando a perspectiva de votação de Eduardo Campos antes de sua trágica morte. Obviamente, Marina, que já tinha uma “reserva eleitoral” de 2010, foi ainda fortemente beneficiada pela comoção da tragédia ocorrida e pela intensa exposição midiática que então colheu. Mas há mais fatores que contribuíram para elevar Marina à crista da onda. Há sobretudo indícios claros de que boa parcela do eleitorado brasileiro está cansada da polarização PT–PSDB e, portanto, ansiosa por uma alternativa. Eduardo Campos não tinha conseguido atrair de fato essa parcela (fora de estruturas partidárias), pois a impressão dominante era a de que seguia pelos mesmos trilhos, na tentativa de abrir espaços para ele.

MARINA, certo ou errado, tem a aura de ser diferente. Beneficia-se de ter uma origem e trajetória em muitos aspectos semelhante à de Lula: foi pobre, sofreu muito e teve que lutar para sobreviver e superar as desvantagens de sua condição. A pauta ecológica que herdou de Chico Mendes e assumiu lhe dá uma face simpática. Saiu do governo Lula, de quem era ministra, deixando a impressão de que não lhe era dado o espaço devido e ela não estava disposta a contemporizar e renunciar a seus princípios. Ademais, preserva a imagem de ter sido e ser imune à corrupção que tão profundamente impregna o cenário político em suas mais diversas colorações.

Assim, na primeira pesquisa, imediatamente após a morte de Eduardo Campos, atraiu para si uma boa parcela de quem estava indeciso ou disposto a votar em branco ou nulo. Ou seja, boa parcela de quem está “contra tudo que está aí” (inclusive muitos jovens), que o PSOL em vão tentou atrair para seu minúsculo rebanho, aderiu de bom grado a ela. Nesse primeiro momento, Dilma e Aécio ainda preservaram a intenção de voto de quem até então tendia a neles votar. Porém, ficando evidente que Marina estava se tornando uma alternativa viável, na segunda pesquisa do DATAFOLHA uma parcela de eleitores em potencial de todos os demais candidatos/a se deixou seduzir pela perspectiva da “terceira via” e se bandeou para Marina.

Nesse cenário, pelo menos por ora, Marina pode surfar tranquila na crista da onda. Pode, inclusive, se dar ao luxo de bajular tucanos e petistas (não todos, é claro, apenas os “melhores”), como fez no debate de ontem na Band, reconhecer as “conquistas” de seus governos, mas, longe de qualquer confrontação maior, prometer “unir” o país.

O primeiro a estar contra as cordas e necessitado de lutar desesperadamente para não ir à lona é AÉCIO. Não pode pôr de lado a agenda neoliberal que ele, seu partido e seus aliados tão decididamente assumiram já no passado, seja porque é sua convicção, seja porque coincide com a agenda do “mercado” e da “grande mídia”, de cujo apoio dependem, e precisam continuar atacando a política, segundo eles “fracassada”, de Dilma e do PT (o PMDB e outros aliados do governo são convenientemente poupados, na esperança de tê-los como aliados mais à frente). Nisso, porém, correm grande risco, pois os votos que porventura viessem a sacar de Dilma teriam grande probabilidade de migrarem não a ele, Aécio, mas à Marina, empurrando-o então mais ainda ao “fundo” do terceiro lugar, posição humilhante. A perdurar ou até mesmo aumentar a distância que Marina dele livra, Aécio fatalmente terá que se distanciar mais claramente dela, mas não o poderá fazer de forma contundente, pois caso viesse a conseguir ultrapassá-la chegando ao segundo turno, o que agora não parece muito provável, precisará dela (e do PSB e aliados) num enfrentamento com Dilma. Ou seja: o cenário requer de Aécio um equilibrismo extraordinário, em que a probabilidade maior é a de lá pelas tantas cair.

De outra parte, ironicamente, Dilma não pode ficar tranquila com a eventualidade que a candidatura de Aécio venha a despencar. A pesquisa até revelou um aumento do número de quem considera seu governo como bom ou ótimo e sua gestão como igualmente boa ou ótima, mas simultaneamente uma redução do número de pessoas dispostas a reelegê-la! Assim, o “sonho” petista de ver a nau tucana soçobrar pode se tornar um pesadelo para a própria nau. Ao que tudo indica, a esta altura seria para Dilma mil vezes preferível ter que enfrentar num segundo turno a Aécio, para o que poderia contar com a divisão dos votos dados a Marina, provavelmente lhe garantindo a vitória num segundo turno, do que enfrentar Marina, para quem provavelmente confluirá uma nítida maioria dos votos dados a Aécio. Depois de Aécio, poderá ser ela, num segundo turno, a ver-se contra as cordas e lutando para não ir à lona. Também ela deverá continuar se diferenciando de Aécio e comparando os governos de Lula e dela própria com os governos anteriores de FHC e do PSDB, comparação que lhe é substancialmente favorável em muitas áreas. (Embora Aécio, à diferença de Serra em 2010, venha defendendo intensamente o governo FHC, pois não pode renunciar a São Paulo, nem ele se atreva a acusar o legado de Lula, preferindo dizer que o governo Dilma teria posto a perder os avanços anteriormente registrados e levado a economia brasileira a um estado, segundo ele, caótico.) Mas também Dilma não poderá exagerar na dose da crítica, pois a confrontação aberta com Aécio poderia reforçar a candidatura de Marina, como “alternativa”. De outra parte, deverá distanciar-se também de Marina, pois o enfrentamento com Aécio lhe seria mais favorável, mas tampouco poderá fazê-lo duramente, pois poderia correr o risco de, em sendo exitosa em sua crítica, empurrar o eleitorado de Marina em massa para o lado de Aécio num eventual segundo turno com ele.

Ou seja: ao que tudo indica, Marina pode continuar surfando com bastante tranquilidade enquanto a onda lhe for favorável. Quão forte e duradoura é ela? Eis a questão xis. Marina não será acossada com força nem de um lado nem de outro, pelo menos no primeiro turno, pelas razões acima expostas. E ela poderá se apresentar com determinação como a alternativa pela qual o eleitorado anseia, sem polemizar demais com seus adversários. Poderá se dar até mesmo ao luxo de elogiar as conquistas “positivas” dos governos anteriores (a estabilidade da moeda com FHC e as conquistas sociais de Lula e, inclusive, até certo ponto, de Dilma). Em verdade, a facilidade com que muitos votos de indecisos, brancos e nulos aderiram à candidata Marina revelaram que sua insatisfação com “Dilma e o PT” pouco têm a ver com suas propostas políticas e conquistas sociais, que eles em verdade não desejam perder, mas muito com sua “crise ética” e suas “alianças espúrias”. Assim, também se recusavam a engrossar as fileiras de Aécio, na sensação de que assim fazendo poderiam estar perdendo os avanços sociais e de forma alguma estariam imunes à “crise ética”, entre eles apenas negada na propaganda, mas não na realidade das oposições. Agora, têm a sensação de ter encontrado a alternativa condizente com seus anseios.

Façamos algumas considerações adicionais, porém. É claro, Marina não está de todo imune à dubiedade das alianças, haja vista a própria construção de sua candidatura. Nem mesmo pode se considerar totalmente livre de sofrer questionamentos de natureza ética, haja vista, por exemplo, a questão muito duvidosa da propriedade e do pagamento do jato que acabou vitimando Eduardo Campos. Por ora, porém, ainda prevalece a sensação de que isso não tem nada a ver com ela, apenas com o PSB, do qual ela só é membro por circunstâncias fortuitas.

Marina, pois, também tem seus pontos vulneráveis. Não são poucas as contradições de sua candidatura e propostas: preocupação ecológica x interesses do agronegócio; recusa e crítica a alianças x ingresso no PSB com o qual sua Rede em verdade tinha e tem muito pouca afinidade; associação com grandes interesses do liberalismo “ecológico” (Natura) e do setor financeiro (Itaú). Num segundo turno, a que ela ascendesse, essas questões provavelmente ocuparão maior espaço na campanha (que será menos “paz e amor” do que a do primeiro turno). Ela pode agora se apresentar, como o fez no debate de ontem, como a candidata da “união”, disposta a convocar para participar em seu governo “os melhores” também dos demais partidos, inclusive do PT e do PSDB. Das duas uma: ou ela faz uso oportunista, político-eleitoral, desse argumento para atrair simpatias, principalmente do eleitorado cansado de antagonismos estéreis, mas sabendo que não será assim, ou ela se apresenta como possível futura presidenta do Brasil com muita ingenuidade para a tarefa que a aguarda. Pois a política não passa preponderantemente por “pessoas”, que depois levem seus partidos a cabresto. Ela precisaria construir maioria no Congresso, origem de todas as “alianças espúrias”. E isso se dá com partidos, vários deles bem oportunistas, a começar por aquele que seria o mais cobiçado, o PMDB (que deverá estar no próximo governo, mais uma vez, qualquer que seja o resultado da eleição), mas também por partidos “nanicos”, ansiosos por “negociações”.

Esse cenário só poderá mudar o dia em que tivermos uma verdadeira reforma política, e esta só virá por vontade direta do povo (consulta ou plebiscito); nunca será aprovada por um congresso que em sua maioria em verdade não a quer, pois teria muito a perder. Seria bom que o eleitorado brasileiro, a começar por aquelas pessoas que agora aderiram a Marina, entusiasmadas, tivessem bem presente esse dilema, antes de digitar seu voto na urna eletrônica. Para que depois não se frustrem mais uma vez na próxima esquina...

P. Dr. Walter Altmann[i]






[i] O autor é Professor/Pesquisador Faculdades EST e Moderador do Conselho Mundial de Igrejas. Publicado originalmente em seu perfil público na rede social “Facebook”: https://www.facebook.com/walter.altmann.7?fref=ts

Tráfico Humano: isso existe? E eu com isso?

Neste ano de 2014 a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) está desenvolvendo o tema: “Tráfico Humano”. O lema da Campanha é de Gálatas 5.1: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”.

Aqui em Alta Floresta (RO) a Pastoral da Juventude organizou seu retiro de jovens, chamado “pré DNJ” (Dia Nacional da Juventude). Para este evento, realizado no dia 17 de agosto, também os jovens da Igreja Luterana (Paróquia Caminho da Fé). Eu, Pastor Marcelo, fui convidado pela Paróquia Nossa Senhora da Penha para conduzir a palestra do encontro. A reflexão recebeu o título: “Tráfico Humano: isso existe? E eu com isso?” Compartilho com você, através de textos e slides, um pouco da reflexão que fizemos com os jovens da Igreja Católica:

No Brasil existem diferentes formas de tráfico humano. Estas distintas maneiras exploram principalmente mulheres, crianças e adolescentes, no mercado de trabalho, na exploração sexual e na escravização de trabalhadores. O tráfico humano hoje é classificado como um dos crimes organizados mais rentáveis, ao lado do tráfico de drogas e de armas. Entre as principais modalidades de tráfico humano há:

1) Tráfico para exploração no trabalho: nessa categoria inserem-se os trabalhos forçados, escravos, degradantes, entre outros, que não reúnem condições necessárias a que um trabalhador tenha direito e dignidade social. A pessoa exposta a este tipo de tráfico e exploração sofre constrangimento físico, moral e não tem condições de resistir ou abdicar da ocupação que lhe foi submetida. Ainda que receba alguma remuneração, está é baixa; não tem condições de habitação, nem instalações sanitárias e água potável. Estão em risco suas condições de saúde, higiene e segurança. A exploração do trabalho pode gerar condições de verdadeira escravidão. As regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil são as mais afetadas por este tipo de tráfico humano.

2) Tráfico para a exploração sexual: este tipo de tráfico utiliza-se de humanos para a prostituição e geração de material pornográfico. Vale-se do uso da internet, indústria do entretenimento e do turismo. 80% das pessoas atingidas por este tipo de tráfico são mulheres.

3) Tráfico para a extração de órgãos: um dos crimes que mais vem crescendo nos últimos anos. É uma modalidade de tráfico altamente rentável para os traficantes. Envolve um elaborado sistema de coleta, extração, venda e transporte, pois precisa-se de um laboratório para as cirurgias, um médico especializado e um modo viável de transporte do órgão. Este crime explora o desespero de ambos os lados. Tanto do receptor que necessita de um transplante, como do doador, que muitas vezes precisam decidir entre perder um órgão e receber uma renda em momento de crise, ou não fazê-lo e se desesperar ante uma crise econômica que lhe fora imposta pela realidade social.

4) Tráfico de crianças e adolescentes: esta é a modalidade de tráfico que menos informações temos, devido à pouca investigação existente. Sempre existe um agenciador que lucra com a adoção destas crianças. Também ocorre muito o tráfico de crianças e adolescentes para a exploração sexual. Também há crianças traficadas para a exploração do trabalho. Crianças são empregadas nas piores modalidades de trabalho infantil (prostituição, aliciamento, venda de drogas, “pedir esmolas”, entre outras atividades).

A Bíblia tem diversos relatos que nos ajudam a refletir sobre a realidade do tráfico humano, os processos migratórios e o projeto de Deus para seus filhos e filhas:










O tráfico humano é um crime que agride a dignidade humana. Ao limitar a liberdade, fere os princípios do cristianismo. A pessoa humana deve ter seus direitos preservados. A igreja cristã deve lutar em valor da liberdade de todas as pessoas. Por isso a igreja, enquanto agente diaconal, precisa conhecer as principais características do tráfico humano:

A) Crime organizado: existe um sistema sofisticado para que o crime aconteça. Existem fornecedores de documentos falsos, serviços jurídicos, lavagem de dinheiro, transporte, ente outros.

B) As rotas: as principais rotas de tráfico (principalmente para exploração sexual de mulheres, crianças e adolescentes) costuma vir do interior dos Estados para grandes cidades nas quais haja aeroportos ou rodovias para transporte. Também há rotas que se direcionam para as regiões de fronteira internacional. Até 2012 foi constatado que a região brasileira com maior número de rotas para tráfico humano é a região Norte do Brasil.

C) A invisibilidade: o dificulta o enfrentamento destes crimes é a invisibilidade das ações. O crime é silencioso. Poucos são os que podem ou conseguem denunciar. A maioria das vítimas não faz acusação e não denuncia os agentes por falta de consciência da exploração a que foram submetidas, por vergonha de se expor ou por temor de sofrer represálias violentas.

D) O aliciamento e a coação: a principal maneira que os traficantes encontram para traficar humanos é por meio do “aliciamento”. A pessoa é abordada com uma oferta de trabalho irrecusável que melhorará de maneira fantástica a sua vida. Enganada por essas promessas a vítima é conduzida a um lugar distante onde é submetida a práticas contra a sua vontade. Muitos jovens (moças e rapazes) são aliciados pelos recrutadores através de propostas camufladas para ser modelos, jogadores de futebol, babás, enfermeiras, garçonetes, dançarinas, entre outras.

E) O perfil dos aliciadores: normalmente apresentam boa escolaridade; alto poder de convencimento; muitos se apresentam como proprietários de casas de shows, agências de modelos, empresários dos mais distintos ramos.

F) As vítimas: normalmente encontram-se em situação de vulnerabilidade social e/ou econômica. Mulheres empobrecidas; adolescentes e jovens que querem mudar de status social (querem ser alguém na vida); crianças coagidas e raptadas; pessoas ameaças ou que podem colocar a família em risco caso não aceitem a coação dos traficantes.

O Tráfico Humano aproveita-se, de maneira considerável, do processo migratório: a migração é um fenômeno que sempre aconteceu na história da humanidade. A origem das sociedades está interligada com os povos nômades que, quando se estabeleciam, originavam os povoados e, posteriormente, as cidades.

O Brasil conhece bem a realidade da migração. Primeiro a migração para o Brasil (escravos negros, europeus empobrecidos). Depois a migração para fora do país. No século passado os fluxos de migrações de brasileiros ocorria devido à insuficiência econômica brasileira, devido à contrariedades políticas e/ou aspirações de crescimento econômico pessoal.

Surge então a pergunta: como enfrentar o tráfico humano? Ora, é preciso proteger as potenciais vítimas: pessoas que estão em situação de vulnerabilidade; temos que acabar com o tráfico de armas e narcóticos, pois estas são aliadas do tráfico de pessoas, principalmente no uso de rotas e facilitação de movimentação; é preciso promover informação e educação social para que a mentalidade e percepção de possíveis vítimas esteja mais alerta para esta situação social; é preciso denunciar. O tráfico de pessoas é pouco denunciado. As vítimas e/ou pessoas próximas precisam denunciar, pois através destas é que são feitas as investigações e desarticuladas as redes de tráfico; é preciso conscientizar a população brasileira, pois poucas pessoas conhecem essa realidade; necessitamos cobrar do Poder Público atuação e geração de informações mais precisas para a população em geral estar protegida.


Pastor Marcelo Peter[i]


Fotos do Encontro (PRÉ-DNJ)
 Celebração de Abertura do "PRÉ-DNJ" da Pastoral da Juventude
 Celebração de Abertura do "PRÉ-DNJ" da Pastoral da Juventude
 DINÂMICA: os jovens sentindo "na pele" o que é ser traficado!
 JUVENTUDE LUTERANA ÁGAPE - de maneira ecumênica participando do encontro
 Participantes do "Pré DNJ"
 Jovens Luteranos ensinando suas canções para a Juventude Católica
 Juventude Luterana contribuindo na palestra
 TEMA e LEMA da Campanha da Fraternidade 2014










[i] Reflexão embasada a partir de pesquisa em sites de jornalismo; Revistas “Super Interessante” e “Mundo Jovem”; material cedido pela Pastora Rosangela Stange (Coordenadora do Departamento de Gênero, Gerações e Etnias da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil); Mídia DVD Tráfico de pessoas (subsídio da Campanha da Fraternidade, 74min13seg) e Manual da Campanha da Fraternidade, 440 páginas.

E este TEMPLO DE SALOMÃO, quem destruirá?

Nos últimos dias muito tem se falado sobre o tal “Templo de Salomão” edificado e inaugurado pela seita neopentecostal do “barba branca” Edir Macedo. Mas, o que muita gente não tem falado e nem mesmo percebido é a história que envolve “os templos” na vida judaica e cristã (sucessivamente).

Detalhe importante que a IURD e o seu proprietário não fazem questão de recordar é que os templos sempre foram “destruídos”.

A história judaica com o “templo” teve três estações bem específicas. A primeira época corresponde ao templo idealizado pelo Rei Davi, mas edificado pelo seu filho e sucessor no trono, o famoso Rei Salomão. Segundo a literatura judaica este é considerado o Primeiro Templo ou, como é conhecido na linguagem popular: “O Templo de Salomão”. Este templo foi edificado por volta do século X a.C.[1]

Quando o Reino do Sul (Judá – Jerusalém) sofreu o ataque do Império da Babilônia, em 587 a.C este fabuloso e afamado templo foi incendiado e destruído[2] sob as ordens de Nabucodosor.[3]

Mais ou menos setenta anos depois, os descendentes daqueles israelitas voltaram para Jerusalém, reconstruíram a cidade e, sob as ordens de Zorobabel, em 520 a.C. fizeram um novo templo.[4] Esta é a segunda estação: “O Templo de Zorobabel.”[5]

Só que este não era tão imponente quanto o primeiro. Não era tão formoso e belo como aquele que fora construído por Salomão.[6] Mas, foi edificado por mãos de pessoas que estavam dispostas a vivenciar a fé a partir da simplicidade de um novo templo. E assim viveram!

Acontece que no século II antes de Cristo, este templo foi invadido por Antíoco IV e, segundo a religiosidade judaica, profanado, ao ser sacrificada uma porca sobre seu altar. Este ato infame e abusivo de Antíoco IV criou o que a história judaica conhece como “A Revolta dos Macabeus”.[7] Assim, o Templo de Zorobabel não foi destruído (derrubado), mas sua dignidade e honra foram atingidos. Podemos acreditar que o templo caiu por terra.

Com o passar do tempo o corpo físico deste templo foi se deteriorando e no ano 20 a.C ele não passava de ruínas. Foi então que o Rei Herodes, o primeiro, o Rei da Judéia, deu início à faraônica construção do novo templo. Este viria a ser conhecido como o Segundo Templo ou, popularmente, “O Templo de Herodes.[8]

O “Templo de Herodes” é o templo ao qual os evangelhos se referem. Foi neste templo que Jesus expulsou os mercadores.[9] Foi este templo que Jesus metaforizou para explicar como ocorreria sua morte e ressurreição.

Tal templo, que teve suas obras iniciadas no ano 20 a.C, só terminou suas edificações no ano 64 d.C.[10] O cômico (e por que não, dizer, trágico) é que seis anos depois, em 70 d.C, o Império Romano atacou Jerusalém, destruiu tudo, inclusive o templo.[11] A única coisa que sobrou em pé foi uma parede. Esta até hoje existe em Jerusalém. Conhecida mundialmente como “O Muro das Lamentações.”

E atualmente, no Bairro do Brás, em São Paulo, Brasil, temos uma edificação, igualmente faraônica, intitulada “O Templo de Salomão”, mas que, na verdade, é “O Templo de Edir Macedo”.

Como vimos, o verdadeiro “Templo de Salomão” foi destruído por Nabucodonosor e os Babilônios; O “Templo de Zorobabel” foi profanado por Antíoco IV; já o “Templo de Herodes” foi destruído pelos Romanos. Agora, seguindo a lógica natural da história desses templos: Quem vai destruir “O Templo de Edir Macedo”.

Espero eu que não precisemos de nenhuma superpotência ou vingador do futuro para realizar tal ato. Espero confiar que, no século XXI depois de Cristo, as pessoas irão perceber abertamente que a fé não pode ser manipulada e abusada, tal como vem ocorrendo nos atos infames e ofensivos da IURD e toda a sua casta de profetas, apóstolos, bispos e, agora, patriarcas.[12]

Este templo que foi inaugurado em São Paulo fere ofensivamente a fé em Deus e a esperança numa vida nova. Ele é fruto de exploração da fé e da ingenuidade de pessoas que assistem a esses cultos da prosperidade, e ali depositam suas últimas esperanças e economias.

O teólogo Richard Horsley já alertava que é preciso falar da fé cristã sem tira-la da realidade. Jesus não é um ser despolitizado. [13] O “Filho do Homem” estava intimamente envolvido com a realidade das pessoas de seu tempo.[14] E com certeza hoje iria açoitar os mercadores deste novo templo.[15]

O templo, no período do Novo Testamento, era um instrumento de opressão e de grande rentabilidade.[16] Gerava muitos lucros ao explorar a fé ingênua das pessoas.[17] Aqueles que controlavam o fluxo de dinheiro no templo (os cambistas) aproveitavam-se das pessoas que precisavam fazer o cambio no templo.[18] Os administradores do templo se beneficiavam das pessoas que vinham procurar os serviços religiosos.[19] Este novo edifício, templo da IURD, foi construído com dinheiro que provém necessariamente de abusos similares aos da época neotestamentária.

Entendo que a Bíblia e a teologia precisam ser interpretadas com os olhos fixos na realidade que vivenciamos.[20] Jesus, ao pregar um novo reinado,[21] também propunha novas posturas para o povo e para os “religiosos”. Ele se preocupava com a realidade das pessoas.[22] Mas, estas expressões modernas de religiosidade em nada ajudam para que as pessoas vivam uma nova vida em Cristo.

O teólogo Leonardo Boff afirma que, conforme o Jesus dos Evangelhos, a vida religiosa e a fé deve transformar as pessoas, suas vidas, posturas e opiniões.[23] Não é isso que presenciamos na realidade religiosa neopentecostal deste país. Para BOFF, Deus, em Cristo, quer um novo mundo, uma nova realidade para as pessoas.[24] Não é isso que as modernas denominações religiosas, que se dizem cristãs, estão fazendo na vida de fé das pessoas.

Vendo a filmagem de inauguração do dito templo, o “patriarca mor” fala de fé. É até cômico ele falar de fé, uma vez que as práticas eclesiásticas de sua instituição proliferam as obras. Lutero, interpretou, acertadamente, que a fé é uma obra divina em nós, a qual nos chama a praticar boas obras em gratidão.[25] Mas, o que vemos nesta instituição é uma deslocada pregação em favor das obras para benefício próprio (dos pregadores e dos que acreditam neles).


Recordemos o que a Palavra de Deus diz no livro de Hebreus (Hb 7-10): Cristo sacrificou-se uma vez e isto tem valor eterno. Não precisamos mais de templo, sumo sacerdote e atitudes sacrificiais para alcançar a graça de divina.

Em Apocalipse 21.22 temos afirmação clara para a nossa vida de fé com Deus: no novo reinado de Deus não haverá mais templo: “porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro".

Queira Deus que o povo, em plena consciência, com fé no Deus da vida, destrua este “Templo de Salomão” (Edir- IURD) e adore a Deus em Espírito e em Verdade!

Marcelo Peter da Silva
Pastor Luterano da IECLB



[1] Bíblia Sagrada: 1 Reis 6:1; 1 Crônicas 28:11-19
[2] 2 Rs 25.9,13-17.
[3] Alexander, David. O Mundo da Bíblia. São Paulo:Paulinas, 1985. P. 257.
[4] Bíblia Sagrada: Esdras 5 e 6.
[5] Alexander, 1985. P. 254.
[6] PIDOUX, G. Templo no Antigo Testamento. In.: VON ALLMEN, J.J. (Ed.). Vocabulário Bíblico. 2. ed. São Paulo: ASTE, 1972. P. 412-4.
[7] HOEFELMANN, Verner. ISRAEL NO PERÍODO DOS MACABEUS. (Material Didático das aulas de Mundo Contemporâneo do Novo Testamento).
[8] HERING, J. Templo no Novo Testamento. In.: VON ALLMEN, J.J. (Ed.). Vocabulário Bíblico. 2. ed. São Paulo: ASTE, 1972. P. 415-6.
[9] Um extensivo, porém bom texto que explana sobre este templo é a dissertação de mestrado: VOLKMANN, Martin. Jesus e o templo: uma leitura sociológica de Marcos 11. 15-19. São Leopoldo: Sinodal, 1992. 170p.
[10] HERING, 1972. P. 415.
[11] Alexander, 1985. P. 254.
[12] Incluam-se aqui todas as denominações que enganam as pessoas e ferem sua dignidade com promessas de cura, libertação, prosperidade e coisas semelhantes.
[13] Horsley, Richard. Jesús y el Imperio: el Reino de Dios y el nuevo desorden mundial. Estella: Verbo Divino, 1993. p. 16.
[14] JEREMIAS, Joachim. Jerusalén en Tiempo de Jesús: estudio económico y social del mundo del nuevo testamento. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1977. P. 38 – 43.
[15] “…el templo devora su escaso dinero. (pueblo)” In: MARGUERAT, Daniel (ed). Introducción al Nuevo Testamento: su historia, su escritura, su teologia. Ginebra: Editorial Desclée De Brouwer. 2008. Y, STAMBAUGH, J. E., BALCH, D. L. El Nuevo Testamento en su entorno social. Bilbao: Desclée de Boruwer, S.A., 1993. p. 127-128.
[16] BRAKEMEIER, G. Mundo contemporâneo do Novo Testamento. São Leopoldo : Comissão de Publicações, 1984. v.  2, p. 177-182.
[17] SCHÜRER, E. História del pueblo judio en tiempos de Jesus. II: Instituciones Políticas y religiosas. Madrid : Cristiandad. 1985, p. 317-414.
[18] VENA, Osvaldo D. Evangelio de Marcos: Comentario para exegesis y traducción. Miami: Sociedades Biblicas Unidas. 2008. p. 249.
[19] NAKANOSE, Shigeyuki; MARQUES, Maria Antônia. Jesús y sus opositores. RIBLA (Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana). Número 47, año 2004. Disponível em: Consejo Latinoamericano de Iglesias (www.clailatino.org)
[20] GEORGE, Augustin; GRELOT, Pierre. Introducción Crítica al Nuevo Testamento. Primero Volumen. Barcelona: Herder, 1983. p. 247, 249.
[21] Marcelo Peter da Silva. Basileia tou Theou: sobre el Reinado de Dios entre nosotros. (Texto redigido em San José – Costa Rica en la Universidad Bíblica Latinoamericana, 2009. (Disponível em: www.marcelopeter.blogspot.com)
[22] SACCHI, Paolo. Historia del Judaísmo en la época del Segundo Templo: Israel entre los siglos VI a.C. y I d. C. Madrid: Trotta, 2004. p. 521-522.
[23] BOFF, Leonardo. Jesucristo el Liberador: Ensayo de cristología crítica para nuestro tiempo. 3ª ed. Sal Terrae: Santander,1985. Pag. 67.
[24] BOFF, Leonardo. Jesucristo y la liberación del hombre. Cristiandad: Madrid, 1981. Pag. 86.
[25] LUTERO, Martinho. Das boas obras. In.: idem. Obras Selecionadas: O Programa da Reforma – escrito de 1520. v. 2. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1989. p. 97-170.

Não existe mais "Templo de Salomão"

Sou Cristão Luterano (IECLB) e por isso me indigno diante de determinados acontecimentos que ferem o verdadeiro testemunho da fé em Cristo Jesus, nosso único Senhor e Salvador. Por conta disto, compartilho aqui a reflexão de um irmão cristão da Igreja Católica (ICAR). Creio que podemos compartilhar desta reflexão e nos indignar diante da crise teológica que se assola ante nossa fé:

"[...] a respeito desse "templo de Salomão" inaugurado em São Paulo, mais uma farsa religiosa do nosso tempo e mais uma punhalada no cristianismo, já tão deturpado pelas seitas...

1. Não existe nem poderá existir "Templo de Salomão" algum desde 587 aC, quando o Templo do Senhor, construído pelo Rei Salomão, foi incendiado pelos babilônios. Este era o chamado Primeiro Templo dos judeus.

2. Nem mesmo no tempo de Jesus havia um "Templo de Salomão". Havia sim, o Segundo Templo, construído pelos judeus que voltaram do Exílio de Babilônia entre 537-515 aC. Foi nesse Templo, reformado, ampliado e embelezado por Herodes Magno, que Jesus nosso Senhor pregou. Foi sobre esse Templo que Ele afirmou tratar-se de uma imagem Dele próprio, morto e ressuscitado: "Destruí este Templo e em três dias Eu o edificarei!".

3. O Templo de Salomão em si não tem significado algum para o cristianismo. Também não pode ser reconstruído, pois já não seria o Templo "de Salomão", mas de outra qualquer pessoa! O que se construiu em São Paulo foi um "Edifício do Edir Macedo", nem mais nem menos...

4. Quanto ao Templo dos judeus, somente pode ser construído sobre o Monte do Templo, chamado Monte Moriá, em Jerusalém. Os judeus nunca reconstruíram o seu Templo por isso: porque ali já estão erguidas duas mesquitas muçulmanas...

5. Os cristãos jamais poderão ou deverão reconstruir Templo judaico algum! Isto é negar Nosso Senhor Jesus Cristo, é voltar ao Antigo Testamento! O Segundo Templo era imagem do Corpo do Senhor. Ele mesmo o declarou. Aqui coloco de modo explicado o que Jesus quis dizer: "Vós estais destruindo este Templo! Podeis destruí-lo; ele já cumpriu sua função de figura, de lugar de encontro de Deus com os homens! O verdadeiro Templo é Meu corpo imolado e ressuscitado! Vós destruireis o Meu corpo como estais destruindo este Templo! Mas, dentro de três dias Eu o ressuscitarei, edificando o verdadeiro Templo, lugar de encontro entre Deus e o homem: o Meu corpo, que é a Igreja!"

6. Arca, sacrifícios antigos, utensílios do antigo Templo, já não têm sentido algum no cristianismo. Mais ainda: não passam de pura e vazia falsificação que ofendem a resta consciência cristã e desrespeitam os judeus, imitando de modo grosseiro e falseando de modo superficial o real significado dos seus símbolos religiosos.


Conclusão: É uma pena ver como o charlatanismo, a ignorância, o grotesco prosperam em certas expressões heterodoxas de cristianismo... E tudo por conta do tripudio sobre a ignorância e falta de bom senso de toda uma população insensata. Só isto."

Dom Henrique Soares da Costa
Bispo da Diocese de Palmares-PE
Igreja Católica Apostólica Romana
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