Advento é tempo de novidade


O Tempo de Advento é tempo de preparação para a chegada da novidade em nossa vida. A novidade que Deus preparou é Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador.

No Tempo de Advento, inspirados pelo amor de Deus por nós, em Cristo, podemos refletir e perceber que a novidade de vida deve ser constante em nosso ser e agir.

Como é bom poder olhar para o presente e perceber que situações do passado, que considerávamos importantes, já não têm mais valor, importância ou consideração.

Como é saudável olhar para a vida que se abre aos nossos olhos e dar adeus às situações desagradáveis que antes considerávamos benéficas.

Como é maravilhoso perceber que já agora, neste presente, abre-se um novo futuro para a nossa existência. Podemos sorrir e perceber que a felicidade está bem perto de nós, ainda que não tão próxima.

É Tempo de Advento! É tempo de preparação! É tempo de novidade!
As coisas antigas ficaram para trás. O bom e salutar está ao nosso alcance!

Demos sempre graças a Deus, pois Ele sempre renova as nossas forças e as nossas esperanças.

E lembre-se, quando você pensar que tudo está ruim, tudo está perdido, tudo está acabado: “Jesus nasceu na simplicidade de um curral para nós dar o maior testemunho de que sempre há algo bom, mesmo onde, à primeira vista, não se percebia riqueza, beleza e graça!”


 Marcelo Peter

Lutero, a justificação e o papa Francisco

“Depois de alguns séculos repousando em sua tumba, Martinho Lutero ressurgiu dos mortos. Como bom alemão, sua primeira parada vindo do cemitério foi numa cervejaria; depois de surpreender-se com algumas diferenças de dialeto e perceber que sua tradução da Bíblia, feita “na linguagem de hoje” do século XVI, tinha virado uma tradução castiça (“Raios, preciso fazer tudo de novo! E incluir umas dessas gírias atuais!…”), o querido reformador foi inteirar-se do cenário religioso.


Numa biblioteca, aprendeu rapidamente a usar nosso oráculo; e através do Google descobriu que em 31 de outubro de 1999 católicos e luteranos assinaram um documento de consenso sobre o próprio “pomo de discórdia” da Reforma luterana, a doutrina da justificação.

A primeira coisa que Lutero pensou, maravilhado, foi: “Se tivéssemos tido uma reunião dessas em 1517, tudo teria sido diferente!” Não é novidade para ninguém que Lutero nunca quis deixar a Igreja; e, segundo aquele documento que o reformador ressuscitado tinha diante dos olhos, já não havia mais “causa suficiente” (como se diria no século XVI, em linguagem escolástica) para o rompimento.

Lutero saiu da biblioteca empolgado e, depois de informar-se, rumou para a casa do superintendente distrital da Igreja Luterana. Queria saber a quantas andava o processo de reconciliação. No caminho, viu um pequeno grupo amontoado diante da vitrine de uma loja, na frente de um aparelho de televisão. Transmitia-se uma entrevista dada, no Brasil, pelo papa Francisco. Lutero ficou ali, vendo a entrevista. Assistiu-a inteira. Habituado aos papas “principescos” do século XVI, Lutero praticamente não acreditava que aquele padre humilde, falando na necessidade do clero viver na pobreza no meio dos fiéis, podia efetivamente ser um papa.

Lutero, que sempre teve muito respeito por Maria, começou imediatamente a entoar o Magnificat: “Minha alma engradece ao Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador…” Sua vontade era a de também entoar o Nunc Dimittis, o cântico de Simeão: “Agora, despede em paz o teu servo, ó Senhor…” – porque dizia consigo mesmo: “Tudo se acertou! Não sou mais necessário aqui!”

Mas, num determinado momento da entrevista do papa, Lutero ficou ainda mais surpreso. O papa falava sobre as reformas a serem conduzidas na Cúria romana e, para justificá-las, disse, com toda a simplicidade: “Há um ditado muito antigo na Igreja que diz: Igreja reformada, que deve sempre ser reformada”. Lutero mal podia crer no que ouvia. “Ecclesia reformata, semper reformanda”, esse lema que embalou tantos adeptos da Reforma luterana, estava nos lábios do atual papa!


Com o coração aos pulos, Lutero chegou à casa do superintendente distrital da Igreja Luterana. Surpresa, abraços efusivos, o homem chorava feito criança: “Cresci lendo suas 95 Teses!” “Que bom, que bom”, dizia Lutero. “Mas vamos ao que interessa. Viste o discurso do papa no Brasil?” “Bem, não…” “Mas por que não? Que *&$#@, homem!” (Não se escandalizem, é sabido que Lutero empregava linguagem pesada, até no púlpito).

Imediatamente Lutero procurou a entrevista no Youtube, servindo-se do notebook do filho do superintendente. Mostrou-a ao homem, que a assistiu, pasmo. Finda a entrevista, Lutero disse: “Soube pelo mesmo Google que a Igreja que vocês teimam em chamar ‘luterana’ (um absurdo, porque eu não morri na cruz para ter Igreja em meu nome!) assinou um acordo com a Igreja Católica em 1999 sobre a doutrina da justificação. É verdade?”

O superintendente tremeu, achando que isso teria desagradado o reformador. Tentou se explicar: “Veja, é que…” “Não me venha com ‘é que’! ‘É que’ coisa nenhuma! Quero saber o que foi feito depois para a plena reconciliação!” “Como assim?”, disse o homem, trêmulo.

Lutero botou ambas as mãos sobre a cabeça, num gesto seu muito peculiar; sentou-se e pediu uma caneca de cerveja, “Weiss, por favor!” Depois de beber, limpou o bigode de espuma e disse, já mais calmo: “Vocês assinam um documento que mostra que o motivo principal das 95 Teses, o desentendimento em torno da doutrina da justificação, foi plenamente superado. Hoje, católicos e ‘luteranos’ pensam de igual modo sobre as bases da fé cristã. Acabo de ouvir o discurso do mais evangélico dos papas. E me pergunto: com tudo isso, como, 14 anos após esse acordo, ainda não nos reconciliamos plenamente?”

O superintendente travou. Como explicar ao reformador a multiplicidade de interesses, de jogos de poder, de cátedras episcopais? Como dizer a ele que gerações de cristãos luteranos foram formados mais no ódio aos católicos do que na doutrina bíblica, e que o mesmo aconteceu também entre os católicos relativamente aos luteranos? Como dizer que “ser luterano” tornara-se característica “nacional”, especialmente para os alemães do norte, e que a plena reconciliação poderia desagradar muita gente?

“Entenda, rapaz”, disse o antigo monge agostiniano. “Tivesse eu, em 1517, sido recebido por um homem como esseFrancisco; tivesse eu tido ao meu alcance um grupo de teólogos católicos como esses que assinaram o acordo em 1999, jamais teria havido essa tal ‘reforma’. Ou melhor, ela teria ocorrido sim, mas como deveria ser: dentro da Igreja. De nada adianta sair e construir uma casa nova, quando o que queremos é reformar o antigo solar de nossa família. Compreendeu?”


O outro engoliu em seco. “Sim… Acho que sim.” E depois de um silêncio, perguntou: “O que o senhor quer que a gente faça?” Lutero soltou uma risada larga, outro traço característico seu, e disse: “Você ainda pergunta? Não é o que eu quero, meu jovem, é o que o Senhor quer! João 17:21 faz parte da sua Bíblia, não faz? Bom, reúna a rapaziada toda e vamos pra Roma conversar com Francisco. O caminho é longo…”

“Agora vamos de avião, voando”, disse o superintendente. “Chegaremos em poucas horas”.

“Que bruxaria será essa?”, pensou Lutero. Mas, depois de Google, de televisão e de um papa que falava em reformas mais do que os protestantes, não se surpreendia com mais nada. “Que seja, compre as passagens. Mas antes, vamos beber outra cerveja!”


(AUTOR: Rui Luis Rodrigues, doutor em História pela USP, diretor e professor da Faculdade de Teologia Carisma. Artigo publicado pela Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação - ALC, 21-10-2013.)

A Redescoberta da Reforma


No dia 31 de Outubro, em todos os lugares do mundo os Luteranos celebram o dia de Reforma Protestante. Essa Reforma te início na Alemanha, e teve como seu ponto auge o dia 31 de Outubro do ano de 1517, quando o monge agostiniano Martim Lutero, prega na porta da igreja que fica dentro do castelo da cidade de Wittenberg suas 95 teses.     

Essas teses falam do reencontro com um Deus que é misericordioso e que ama e perdoa o pecador. E não um Deus distante, que é apenas um juiz, distribuidor de castigos e que cobra pelo perdão. Lutero descobriu na Palavra de Deus, na Bíblia, o Deus que oferece a graça. Ele redescobriu o Deus que não faz negócios com o seu amor e a sua misericórdia. Lutero redescobriu o Deus que ama as pessoas pecadoras, as pessoas fragilizadas, as desesperadas. Lutero dirá que só consegue entender Deus quem o compreende a partir do seu rosto voltado visivelmente para o mundo, no sofrimento e na cruz.

Essa redescoberta está prestes há comemorar 500 anos. E por isso, as Igrejas Protestantes ao redor de todo o mundo estão em festa.

Pastor Ricardo Brosowski.

Paróquia Evangélica de Confissão Luterana no Vale do Juruena.

A Educação e a Reforma Luterana

No dia 15 de outubro celebra-se o Dia do Professor e da Professora. Dezesseis dias depois se festeja o Dia da Reforma. Unindo as duas comemorações, segue uma reflexão acerca da influência da Reforma Luterana no processo de transformação e desenvolvimento do sistema educacional.

Diferente de outros textos que aqui publico, este é mais longo. Ainda assim, vale a pena aproveitar a reflexão:


O SISTEMA EDUCACIONAL NO TEMPO DA REFORMA
Durante os séculos XIV e XV a Europa vivenciou um alvorecer intelectual. Por todas as partes instituições educacionais vinham florescendo.[1] As diversas ciências estavam fomentando os processos de emancipação educacional.[2]A vida universitária, pelo menos aparentemente, pareceu beneficiar-se dum surto notável. Em menos de dois séculos os ‘studia’ multiplicaram-se nos países onde as escolas já prosperavam há muito tempo e espalharam-se por toda Europa germânica e eslava, [...].”[3]

Todas estas importantes instituições que foram surgindo ou desenvolvendo-se estavam à mercê do poder eclesiástico do papado e emaranhados por uma constante batalha por conta da manutenção de poder e destaque por parte dos diversos principados e “nações” europeias. Cada região política queria prevalecer em diversos âmbitos e isto gerava conturbadas disputas políticas.[4]

Para as lideranças políticas, o investimento educacional, não visava uma educação em prol da formação social. “Para os soberanos, trava-se de acentuar a autonomia intelectual do Estado, de reter os estudantes nacionais, de atrair os estrangeiros e finalmente enriquecer a sua reputação.”[5] O papado concedia ou coibia as possibilidades de transformações no âmbito educacional de acordo com os interesses particulares dos bispos, prelados, principados e a cúria romana.[6]

Já no seu tempo de florescimento, a vida universitária estava transformando-se em instrumento governamental para uma glória patriótica particular e manejo político:
[...] na concessão dos privilégios, nomeadamente nos tempos de Clemente VI e Urbano V, o papado hesitava por vêzes em multiplicar os centros de estudos [...]. Cada organização pretendia obter as luzes de grande número de doutores, como se verifica pelas bulas de fundação de Heidelberg (1386), Colônia (1388) e Erfut 1389). [...] as Universidades permaneciam submetidas à jurisdição eclesiástica, embora dependessem, ainda mais, dos mecenas e dos príncipes que as dotavam.[7]

É perceptível o porquê de, no tempo em que se inserem as propostas reformatórias, haja a necessidade de reformar também o sistema educacional. Nestas constantes disputas de poder, controlando os meios intelectuais, originou-se uma crise no sistema educativo escolar e universitário.[8] Algumas instituições vegetavam ou até mesmo desapareciam; o número de estudantes decrescia década trás década;[9]

Quem controlava os centros educacionais era a igreja. No entanto, os líderes religiosos ou não estavam preocupados com o processo educacional ou nem sequer tinham senso crítico para propor uma educação social e religiosa. Por exemplo, o alto clero valia-se do poder eclesiástico para beneficiar-se, buscando seus próprios interesses econômicos e políticos.[10] Para este era lógico que a educação não lhes seria útil em nada. Por que fomentar mentes criativas e críticas? A preocupação pela situação vivencial do povo comum e por sua instrução educacional era inexistente, vista desde o alto clero.

Em contrapartida, o baixo clero, por sua vez, vivia em uma atmosfera de ignorância. Sua condição educacional era mínima e quase inexistente:
Eram freqüentes, nesse período [da Reforma], as reclamações a respeito da formação do clero e dos religiosos, para os quais não existiam seminários nem programas formativos homogêneos. Poucos prelados tinham os estudos universitários completos [...][11]

Diante de toda esta realidade vivencial, onde a constatação de uma ignorância forçada, isto é, de um desprezo pela educação social era uma triste constatação, surge a necessidade de reformas, transformações e melhorias em todos os setores da vida social: religiosa, cultural, educacional, econômica, etc. Toda a esfera social carecia de uma urgente mudança. O historiador ZAGHENI afirma que
A reforma é uma necessidade comum a toda a Europa e teve suas diferentes respostas: a protestante e a católica. Ambas têm suas raízes na tardia Idade Média européia e ocidental, confrontam-se com as mesmas expectativas e problemas, com a mesma situação cultural, espiritual e política e são condicionadas por um desafio comum.[12]

Em vista de todos estes argumentos, pode-se perceber que a situação educacional no final da Idade Média era fruto de uma completa desorganização da Igreja e do Estado.[13] Os interesses pessoais estavam acima da preocupação com a formação educacional para uma vida mais plena.[14] Ciente disto, algo deveria ser feito.[15] Percebendo esta realidade adentramos à eclosão da Reforma.

No século XVI estava-se num momento extremamente crítico. Uma ação tal como a da Reforma, com plena certeza, era necessária. Por intermédio do modo de pensar humanista (o humanismo estava incrustando-se nas decisões reformatórias)[16] a Reforma estava ganhando corpo no meio acadêmico.[17] Mas, diante da crise social e religiosa, as reflexões precisavam tornar-se em atos concretos para efetivar as ideias de uma Reforma em sentido real. E eis que se deu o início do processo.

O IDEAL REFORMATÓRIO NA EDUCAÇÃO

Oficialmente, as transformações tiveram início em 1517, aos 31 dias do mês de outubro. As reflexões estavam fervilhando em Wittemberg e nas regiões circunvizinhas. Alguns anos já haviam passado e alguns reflexos foram sendo percebidos. Infelizmente, algumas ideias haviam sido mal compreendidas. Pessoas como Karlstadt[18] propagavam uma simplicidade religiosa na qual a instrução tornava-se desnecessária.[19] Observa-se que em virtude destas deturpadas compreensões do ideal reformatório “[...] surgiu repentinamente uma decadência muito perigosa no ensino.”[20]

O movimento reformatório precisava dar atenção especial ao sistema educativo, num primeiro momento para resolver o problema da “[...] dissolução de mosteiros, cujos ocupantes em grande parte se dispersaram [...]”[21] e “Dessa maneira as instituições de formação existentes, escolas de latim e universidades, estavam subitamente em falta de alunos e estudantes.”[22] Isto causou um quase desaparecimento das instituições de formação. E, em segundo lugar, era necessário reorganizar o sistema educativo.[23] Lutero e Melanchthon batalharam avidamente para consolidar uma nova realidade no processo e no método educacional. A Reforma, muito mais do que somente reorganizar a vida eclesiástica do fim da Idade Média, pôde inferir ativamente na reestruturação da formação educacional em seus diversos setores.

As propostas de Reforma da Igreja estão permeadas de iniciativas para a reforma no sistema educativo. Um dos fatores que faz levar essa tese em consideração é a da cosmovisão da época, onde sociedade e igreja são partes integrantes de um mesmo universo vivencial.          Por isto mesmo é que Lutero em sua “[...] proposta de Reforma compreende a dos estudos, da pregação e da teologia (fontes, autoridades, métodos); e deve basear-se teologicamente na justificação gratuita pela fé na misericórdia de Deus prometida em Cristo.[24]

Possivelmente isto se deva ao fato de o Humanismo estar tão intrinsecamente conectado ao ideal reformatório, uma vez que os ideais renascentistas e humanistas haviam adentrado anteriormente nas universidades. Não é exagero afirmar que o Humanismo foi extremamente importante para auxiliar a Reforma a influir no modelo educacional vigente naquele período. E a Reforma, tendo como base intelectual teólogos humanistas, valeu-se desta possibilidade para difundir seus ideais.[25]

De maneira objetiva, não podemos entender a influência da Reforma para a Educação unicamente com a chave de leitura do humanismo-renascentista. Isto delimitaria e até distorceria a intenção dos reformadores.[26]

A Reforma deu-se num tempo fortemente influenciado pelo humanismo-renascentista. Melanchthon deu à Reforma e ao luteranismo um cunho humanista, mas as influências mais atuantes desta filosofia sobre o luteranismo deram-se num tempo posterior a Lutero e Melanchthon. [27]

Tratando-se dessa ingerência no tempo da eclosão da Reforma, sabe-se também que alguns humanistas, a exemplo de Erasmo de Roterdã,[28] foram responsáveis por críticas e contendas com Lutero e os Reformadores de Wittemberg. Justamente neste período, quando a imagem de Lutero foi contestada e questionada, percebe-se uma resistência à Universidade de Wittemberg.[29] Tirava-se o seu crédito por duvidar-se de sua proposta educacional, bem como por sua localização provinciana.[30] Isto quer dizer, o Humanismo não foi somente aliado da Reforma. Para tanto não podemos alinhar a Reforma com o Humanismo de forma geral. Isso seria um viés interpretativo ingênuo.

Quanto à questão relativa à localização provinciana da Universidade de Wittemberg, vale recordar que ela era relativamente nova e foi fundada no Principado da Saxônia por conta da divisão de territórios. O Príncipe Eleitor da Saxônia via a necessidade de uma universidade local forte e fomentadora de uma educação que fizesse seu território ser reconhecido.[31] Nesse sentido, a proposta educacional da Universidade de Wittemberg sempre apoiaria ideologias e visões progressistas, tal como foi a Reforma. Sempre haveria um apoio aos ideais de transformação, pois a corte necessitava de ‘expansão’ nos mais diversos setores.[32] Por isso mesmo, consideremos também que esta universidade somente foi construída em Wittemberg em virtude de uma expansão econômica surgida nessa região.[33]

Percebemos que foi exclusivamente por iniciativa da Reforma e de Lutero que “[...] surgiu um sistema escolar evangélico erudito.”[34] A partir da eclosão do ideal reformatório e das conseqüências com ela advindo, a Reforma “[...] se dedicou à formação ginasial e conclamou as cidades alemãs a criar escolas para moças e rapazes, a fim de serem preparados para o ministério da pregação bem como para profissões eruditas seculares.”.[35]

A CONTRIBUIÇÃO PEDAGÓGICA DO HUMANISTA PHILIPP MELANCHTHON
Melanchthon[36] é um dos principais expoentes na Reforma Protestante que se identifica claramente com a corrente humanista.[37] Ele foi influenciado por Lutero no que tange às compreensões teológicas a partir da visão advinda com a Reforma e Lutero foi fortemente influenciado pelo modo de pensar de Melanchthon,[38] a partir da hermenêutica humanista.[39] Em certo grau e sentido o humanismo está de mãos dadas com a Reforma e as duas estão completamente direcionadas no processo de reestruturação do modelo educacional da época.

Pode-se classificar o humanismo como “[...] um movimento internacional de cultura, formação, erudição centrado na literatura (filologia, gramática, retórica, lógica) e na moral, [...]”.[40] O humanismo influenciou profundamente a Reforma quando se percebe nela as principais características daquele movimento. Alguns historiadores delimitam-na como sendo “[...] uma febre de erudição: descobrir, publicar, estudar, imitar os autores clássicos, aprender as línguas. Portanto, um retorno às fontes.”[41]

É possível compreender a contribuição de Melanchthon para a Educação, a partir da ação da Reforma, na medida em que se percebe que, na ótica humanista, “há um interesse pela educação, em particular pela reforma das escolas e das universidades, [...]”.[42]

Diversas proposições de Lutero, as quais podem ser interpretadas como de cunho pedagógico, isto é, educacional, foram em grande parte refletidas e sugeridas a partir das reflexões com Philipp Melanchthon. Lutero não abstraiu suas principais formulações teológicas em seu tempo monacal, onde a escolástica era a chave mestra no processo educacional. Muito do que Lutero passou a defender como ideais transformadores da sociedade e da igreja foi, em grande parte, fruto do contato com Melanchthon e sua hermenêutica humanista.

É justamente na Universidade de Wittemberg, em contato com o erudito humanista Philipp Schwarzert (Melanchthon), que muitas das formulações da teologia da Reforma ganharam corpo e fundamentação.[43]

Melanchthon tinha apenas 21 anos quando tornou-se professor de grego em Wittemberg.[44] Ele era cerca de 15 anos mais jovem que Lutero, que o influenciou sobremaneira na perspectiva de que Melanchthon veio a tornar-se por excelência um cristão evangélico e especialista em dogmática da Reforma.

Por conseguinte, Melanchthon contribuiu ativamente no processo de desenvolvimento da Reforma. Seus conhecimentos linguísticos alavancaram a produção teológica. Sua postura educativa o fez ser reconhecido como gramático-mor da língua alemã, contribuindo por gerações para todo o processo educacional na Alemanha. O entusiasmo perceptível em Lutero para o estudo e aprofundamento das “línguas” é evidentemente fruto do contato íntimo e amistoso com Melanchthon.

Graças ao contato com os humanistas, em maior medida com Melanchthon e em menor com outros pensadores, Lutero passou a entrar para o mundo do humanismo e este tornou-se o seu mundo.[45]

Quando se fala da Reforma como contribuinte para a melhoria do sistema educativo, pode-se constatar uma divisão de tarefas reformatórias, pois “[...] Lutero concebeu um programa de formação e de escolas. A Reforma das universidades ele delegou a Melanchthon.”[46]

MARTIM LUTERO – UM EDUCADOR

Lutero é essencialmente contextual em seus escritos. Sua forma e estilo de escrever não levavam em conta necessariamente os rigorismos linguísticos, mas a funcionalidade e praticidade para a vida cotidiana dos leitores.[47] Nisto podemos observar que Lutero sempre tem um viés catequético, isto é, educacional em todas as suas obras. Lutero utilizou todas as possibilidades disponíveis a seu tempo para exercer uma influência educativa.[48]

Pode-se perceber na atividade educativa de Lutero, em sentido amplo, uma preocupação pela formação integral do ser. Por isso, “as obras pastorais de Lutero podem ser divididas em obras relativas à vida prática cristã, à catequese e à reforma do culto.”[49] Todas estas três subdivisões vem acrescidas de uma enorme preocupação com a educação e formação integral do ser humano, no relacionamento com a comunidade e Deus.

É uma verdade inquestionável que
No campo da catequese, Lutero atuou como pioneiro, publicando com grande sucesso os primeiros catecismos plenamente desenvolvidos da época moderna. Esse seu empenho é motivado pelo contexto da insuficiente formação do clero e pela situação de analfabetismo religioso do povo cristão. Sua contribuição duradoura e exemplar está na publicação, em 1529, de dois catecismos. [...] O método proposto por Lutero sublinha a importância da memorização de um texto simples.[50]

O caráter educativo está intrinsecamente arraigado na estrutura do ser e fazer igreja a partir da Reforma.
Lutero deu a sua colaboração ao criar no período das visitações os seus dois famosos catecismos, escritos sob o ponto de vista catequético. Primeiro foi publicado o Catecismo Menor em forma de cartazes, então o Catecismo Maior, naturalmente em livro, e finalmente o Catecismo Menor em forma de livro.[51]

Lutero adotou uma postura educativa diferenciada para sua época. Ele tornava-se próximo dos estudantes. Diferentemente do modelo tradicional de sua época, marcado pelo rigorismo e especulação da escolástica, Lutero envolvia-se na cotidianidade dos estudantes. A exemplo disto, Lutero, em seu lar, acolhia diversos estudantes num estilo de pensionato e, na convivência comum, informalmente, tratava de temas teológicos e outros da atividade educacional, promovendo uma educação a partir do relacionamento pessoal e direto.[52]

Lutero “[...] deu a seu povo uma unidade interna, intelectual [...]”.[53] Ao desenvolver o seu programa de Reforma da Igreja, coloca em prática a verdade bíblica da igualdade. Ao proporcionar e motivar que todos possam ter acesso à educação, está fomentando que todas as pessoas tenham possibilidades na vida e está valorizando as mais diversas profissões. Nisto está explícita a ‘doutrina da justificação por graça e fé’, bem como a doutrina do ‘sacerdócio universal de todos os crentes’, juntamente com a compreensão sobre ‘vocação’.[54]

Martim Lutero foi extremamente inovador, visionário e inclusivo. Isso é evidencial, por exemplo, no que tange à questão de gênero, pois “preconiza uma reforma fundamental do ensino universitário e do direito. Reclama a criação em cada cidade de uma escola de moças. Roga ao Senhor que ele dê à nação doutores em teologia, médicos e juristas.” [55]

Alguns historiadores ainda afirmam que “a obra criadora de Lutero no campo linguístico, cujo melhor testemunho é a sua ‘Bíblia Alemã’, foi comemorada por muitos com as mais eloqüentes palavras.”[56] E, de tal maneira, compreendem que “o significado singular de Lutero para a cristandade está primeiramente no aguçamento da consciência da verdade. [...] Lutero ensinou ao indivíduo a fazer valer exclusivamente a verdade em todos os assuntos de fé, na convicção, ação e em toda a sua vida.[57]

Em suma, toda as ações propostas por Lutero tem caráter educativo. O próprio Melachthon afirma isto ao escrever na biografia sobre Lutero: “Essas coisas eu relato para que as pessoas [...] saibam igualmente que Lutero reformulou toda a doutrina da igreja, restabelecendo, simultaneamente, a beleza litúrgica e a simplicidade das cerimônias, dando assim um belo exemplo de como as igrejas devem ser organizadas corretamente.”[58]

Conforme o testemunho de Philipp Melanchthon, “não tinha Lutero a intenção de prender os corações aos seus escritos, mas, através deles, conduzir os corações de todos às próprias fontes.”[59]

A REFORMA NA EDUCAÇÃO

Em todas as propostas de Lutero e dos reformadores de Wittemberg sempre haverá um foco primordial pela educação. A vida do indivíduo social, no ambiente religioso e secular, é dedicadamente vislumbrada pelas propostas reformatórias, uma vez que sempre há um interesse pela educação integral.

Lutero e a Reforma foram importantíssimos para que a Educação e o ensino realmente alcançassem as diversas camadas populacionais, não somente na Alemanha, mas em todos os lugares onde a Reforma inferiu. A Reforma “colocou a mão” na Educação e contribuiu diretamente para a sua melhoria e desenvolvimento até os dias atuais.

Marcelo Peter


[1] É importante atentar ao fato histórico de que as universidades surgiram na Idade Média. Foi a Igreja a principal responsável por seu surgimento, mas os Estados e principados estavam mais interessados em controlar seu desenvolvimento. Assim, a política de controle de poder (secular e clerical) ocasionou suas diversas crises. Cf. MARTINS, Lincoln. Grande História Universal. v. 1. Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1976.  p. 252.
[2] Cf. PERROY, Édouard. A Idade Média: o período da Europa feudal, do islã turco e da Ásia Mongólia – Os tempos difíceis (início). 2ª ed. v. 2. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1958. (História Geral das Civilizações) p. 202.
[3] PERROY, v. 2. 1958. p. 199.
[4] Cf. PERROY, v. 2. 1958. p. 203.
[5] PERROY, v. 2. 1958. p. 202-3.
[6] Cf. PERROY, v. 2. 1958. p. 202.
[7] PERROY, v. 2. 1958. p. 202.
[8] Cf. PERROY, v. 2. 1958. p. 204.
[9] Cf. PERROY, v. 2. 1958. p. 204, 206.
[10] Cf. ZAGHENI, Guido. A idade moderna: curso de história da Igreja. v. 3. São Paulo: Paulus, 1999.  p. 29.
[11] ZAGHENI, 1999. p. 30. (O destaque entre parêntesis é um grifo pessoal do autor desta redação.)
[12] ZAGHENI, 1999. p. 34.
[13] Cf. LINDBERG, Carter. As Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 57.
[14] Cf. LINDBERG, 2001. p. 69,72.
[15] “Às vésperas da Reforma, a questão já não era se a Igreja devia ser reformada, mas sim quando.” LINDBERG, 2001. p. 72.
[16] DREHER, Martin N. A crise e a renovação da Igreja no período da Reforma. v. 3. 3ª ed. São Leopoldo: Sinodal, 2004. p. 8.
[17] “Praticamente todas as tendências da Reforma têm traços humanistas. Não há nenhuma orientação que tenha rompido com o Humanismo, nem mesmo Lutero. Há, isso sim, delimitações frente a determinadas tendências.” DREHER, 2004. p. 12.
[18] Cf. LINDBERG, 2001. p. 117-120.
[19] Cf. LAU, Franz. Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 1974. p. 73.
[20] LAU, 1974. p. 73.
[21] LAU, 1974. p. 73.
[22] LAU, 1974. p. 73.
[23] RODRIGUES, Marcos Antônio. A Educação em Lutero – Um estudo introdutório. Pelotas, 2000.p. 20.
[24] ZAGHENI, 1999. p. 34-5.
[25] Cf. LAU, 1974. p. 18.
[26] Cf. LAU, 1974. p. 19.
[27] Cf. WITTHAUS, Carlos. Martín Lutero como pedagogo. In.: IGLESIA EVANGÉLICA LUTERANA UNIDA. Escritos pedagógicos de Martín Lutero. Buenos Aires: ________, 1996. p. 16.
[28] Para uma compreensão do contexto destes intensos debates entre o humanista Erasmo e o reformador influenciado pelo Humanismo Lutero, leia-se: LIENHARD, Marc. . Martim Lutero: tempo, vida, mensagem. São Leopoldo: Sinodal, 1998. p. 134-143.
[29] SIMON, Edith. A Reforma. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. (Biblioteca de História Universal). p. 42-43.
[30] Cf. LAU, 1974. p. 19.
[31] Cf. LAU, 1974. p. 20.
[32] PERROY, v. 2. 1958. p. 199-207.
[33] Cf. LAU, 1974. p. 19.
[34] LAU, 1974. p. 74.
[35] LAU, 1974. p. 74.
[36] Para uma breve visão biográfica de Melachtohn, leia-se: LINDBERG, 2001. p. 116-7.
[37] Cf. DREHER, 2004. p. 7.
[38] Lutero, sim, foi fortemente influenciado por Melanchthon, mas eles diferiam em vários temas. No que tange à participação humana no processo salvífico, Lutero jamais arredou uma vírgula. Melanchthon e Lutero permaneceram amigos por toda a vida. Lutero buscava não entrar em contenda com seu principal discípulo e colaborador, mas evidentemente não concordava com este em alguns pontos fundamentais da Teologia da Reforma. Cf. (DELUMEAU, 1985. p. 50-1.) São perceptíveis as diferenças na forma de pensar destes principais articuladores da Reforma. Saindo relativamente do ‘assunto’, percebe-se que Lutero e Melanchthon diferiam gradativamente justamente por suas diferentes perspectivas a partir da ótica humanista. Por exemplo, no que concerne ao conceito de Palavra. “Para Lutero ela consiste, sobretudo, em expor diante de uma assembléia o testemunho íntegro e contagiante de uma alma crente possuída e nutrida pela mensagem divina. [...] Segundo Melanchthon, o Ministério da Palavra é de Ensino, e seu papel primordial é expor corretamente a doutrina da Bíblia.” STROHL, 2004. p. 211.
[39] DELUMEAU, 1985. p. 36.
[40] ZAGHENI, 1999. p. 47.
[41] ZAGHENI, 1999. p. 48.
[42] ZAGHENI, 1999. p. 48.
[43] Cf. LAU, 1974. p. 71.
[44] Cf. LAU, 1974. p. 71-2.
[45] Cf. LAU, 1974. p. 72.
[46] LAU, 1974. p. 73-4.
[47] ZAGHENI, 1999. p. 113.
[48] ZAGHENI, 1999. p. 113.
[49] ZAGHENI, 1999. p. 115.
[50] ZAGHENI, 1999. p. 115-6.
[51] LAU, 1974. p. 91.
[52] Cf. LAU, 1974. p. 7.
[53] LAU, 1974. p. 8.
[54] GREINER, Albert. Lutero – Ensaio Biográfico. São Leopoldo: Sinodal, 1969. p. 76-7.
[55] GREINER, 1969. p. 74.
[56] LAU, 1974. p. 8.
[57] LAU, 1974. p. 109.
[58] MELANCHTHON, Filipe. Lutero visto por um amigo. Porto Alegre: Concórdia, 1983. p. 33.
[59] MELANCHTHON, 1983. p. 45.