Sobre passarinhos e liberdade


Dentro de uma linda gaiola vivia um passarinho. De sua vida o mínimo que se poderia dizer é que era segura e tranquila. Na verdade sua vida era monótona. Mas, a monotonia é o preço que se paga pela segurança. Não há muito que se fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou “arames de ilusão”.

Dentro de uma gaiola os sonhos aparecem, mas logo morrem, porque os sonhos precisam bater as asas e alçar voos. Dentro de uma gaiola o sonho desaparece e fica apenas um grande buraco na alma. Este buraco cada um vai preenchendo como pode.

Voltando ao passarinho preso na gaiola, a ele só restava, ao invés de voar, ficar pulando de um poleiro para outro; comer; beber; dormir e pagar o aluguel da gaiola com seu “canto de pássaro”.

O passarinho, de dentro da gaiola, olhava e via outros passarinhos: bem-te-vis pegando bichinhos; sabiás ‘sabiando’; beija-flores beijando; rolinhas rolando e urubus... “ah, deixa pra lá!”.

E ele, o passarinho na gaiola, bem ... ele queria voar! Ele queria que a porta da gaiola se abrisse. E o passarinho pediu tanto que, para sua surpresa, um dia, o dono da gaiola esqueceu a portinha aberta. O passarinho quase não acreditou. Chegou mais perto da porta e conferiu. Sim, ele estava livre!

O passarinho saiu de sua gaiola e voou, voou, voou... porém logo ele ficou tonto, porque já fazia tempo que não voava. Suas pequenas asinhas começaram a doer, pois era necessária muita força para ficar no ar. Por conta disto o passarinho não pensou duas vezes: ele pousou numa árvore. Mas, logo precisou sair dali, já que um grande e peludo gato cinza estava se aproximando. Saindo dali ele pousou então num poste, mas também ali não pôde sossegar, pois as crianças do bairro começaram a jogar pedrinhas com seus estilingues.

Em meio a todos esses apuros, o passarinho tremia de medo! Nunca pensou que a liberdade fosse tão complicada. O passarinho, triste, voltou para sua gaiola e, ele mesmo, sem pestanejar, tratou de fechar a pequena portinha.

Caros colegas professores, colegas de aprendizado, Rubem Alves escreve que “somente podem gozar a liberdade aqueles que têm coragem”. E o passarinho não teve coragem! Ele não quis se arriscar a viver a liberdade.

Na prática educacional sabe-se que, para haver liberdade de pensamento, é necessário arriscar-se. A vida, o processo de aprendizagem, a educação é um arriscar-se diário em voos ora rasantes, ora nas alturas. É um arriscar-se a voar por novos ares.

Quem quer aprender a dádiva da liberdade, necessitará voar e passar por mudanças, transformações e, até mesmo, dificuldades. O filósofo Artur Shopenhauer escreveu que “ler e aprender qualquer pessoa consegue; pensar não.” O processo educativo, a arte de voar, não é simplesmente ler e entender conteúdos, mas criar mundos e realidades diferentes a partir do voo do pensamento. É batendo as asas da imaginação que criamos uma nova educação.

Lá na gaiola, dentro das grades e junto ao poleiro, o passarinho só lê os pensamentos dos outros e somente repete os conteúdos que leu. Fora da gaiola, voando pelo mundo, o passarinho pensa no que leu, compreendeu e assimilou, criando seus próprios pensamentos, realidades e alternativas.

No mundo da educação estar na gaiola é ser eternamente dependente do pensamento dos outros. Estar fora da gaiola, voando, é pensar por si mesmo, tal como frisou Schopenhauer.

Quem está na gaiola precisa que lhe tragam a comida e a bebida. Quem está fora da gaiola procura, diligentemente, os seus próprios alimentos diários. Paulo Freire expressa esta mesma ideia ao contrapor os conceitos de “educação bancária” e “educação libertadora”.

Em nossa escola temos muitos passarinhos que querem bater as asas e voar pelo vasto céu. Nós mesmos, por que não, somos pequenos passarinhos que sonham alçar voos de liberdade e transformação. Resta-nos saber se deixamos a escola ser um campo de aprendizagem para novos voos ou se transformamos a educação escolar numa gaiola aprisionadora de pensamentos e sonhos.

Em nossa vida existem muitas gaiolas. Precisamos encontrar as possibilidades para sair das grades desta ilusória realidade. Por isso mesmo, podemos ler o que o profeta Isaías escreve em Is 40. 31 e nos motivar a alçar voos confiantes:
“mas o que confiam no Senhor recebem novas forças. Voam nas alturas como águias, correm e não perdem as forças, andam e não se cansam.”

Voemos confiantes na graça de Deus, pois Ele nos anima e fortalece para vermos um mundo transformado. Porque promovendo uma educação libertadora estaremos voando na graça de Deus!

                                                                                 Marcelo Peter
(reflexão para início do segundo semestre de 2012 no CERB)