CONFESSIONALIDADE LUTERANA - a teologia de Martim Lutero


A Teologia de Martim Lutero possui diversos elementos que a caracterizam. Essencialmente, ela é uma Teologia da Cruz, em oposição à Teologia da Glória. Na Teologia da Cruz de Lutero encontramos o conceito de “Deus absconditus” que é a expressão da revelação de Deus em seu ‘sub contrário’. Deus se revelou não na glória, na força, no poder, na majestade ou na honra que lhe são inerentes, porém justamente no contrário de sua essência. Deus revelou-se na fraqueza, no sofrimento, na pobreza e na mediocridade da humilhação da cruz de Cristo.

Jesus Cristo é a revelação absoluta e sublime de Deus. Lutero, a partir da interpretação bíblica, vai afirmar que Jesus Cristo é ‘posteriora Dei’. Ele é Deus de costas. Em Cristo vemos o próprio Deus. Deus se revelou total e completamente em seu filho unigênito. Mas ele é Deus de Costas (Deus Absconditus – Posteriora Dei), porque nossas funções, capacidades e/ou habilidades cognitivas não conseguem abstrair a revelação divina.

Conhecemos Deus somente de Costas, somente em parte de sua revelação. Isto não ocorre porque Ele assim o quer, mas porque nós não temos capacidade de entender, compreender e perceber Deus em sua totalidade de revelação. Por isso mesmo Lutero vai expressar que Deus, mesmo revelado em Cristo, é um mistério. O mistério faz parte da nossa relação com Deus. Há detalhes, particularidades, expressões da revelação divina que não conseguimos compreender através do nosso intelecto e por nossa própria investigação das Escrituras Sagradas. Em graça, pelo viés interpretativo da fé, devemos crer e confiar que Deus é Deus verdadeiro a partir da revelação plena e completa em Cristo.

A partir disto compreendemos porque Lutero resumiu suas afirmações teológicas nos assim chamados “pilares”, “colunas” ou “pontos” fundamentais da Teologia Cristã. Para Lutero a Salvação deve ser entendida, compreendida e vivida a partir desta síntese teológica: a afirmação da exclusividade de
1somente o CRISTO como conteúdo e mediador salvação;
2somente a ESCRITURA como meio cognitivo pelo qual temos acesso a este conteúdo;
3somente a GRAÇA como forma pela qual a salvação nos é concedida;
4 – e somente a como forma de apreensão da salvação.

Estas quatro afirmações básicas nos auxiliam a compreender o processo salvífico. Neste processo, Deus, a um só tempo, nos justifica e santifica simultaneamente. Estas quatro afirmações precisam ser compreendidas como critérios e princípios exclusivos e absolutos. Igualmente, precisam ser correlacionados numa compreensão de simultaneidade e dialética. Este processo de interrelação, conexão e diálogo é o que está expresso nas imagens que seguem:


Marcelo Peter

REFERÊNCIAS:
  1. DREHER, Martin N.; RIETH, Ricardo Willy; WACHHOLZ, Wilhelm. Somente Deus: quatro princíoios para a vida. São Leopoldo: Sinodal, 2009. 63 p.
  2. MUELLER, Enio R. Teologia cristã em poucas palavras. São Paulo: Teológica, São Leopoldo: Escola Superior de Teologia, 2005. 110 p.
  3. BAYER, Osvald. A Teologia de Martim Lutero: uma atualização. Trad.: Nélio Scheneider. Sinodal: São Leopoldo, 2007.  

A certeza e a dúvida da fé

A certeza e a dúvida da fé
         
O tema fé é um assunto amplamente versado. Muito já se falou, escreveu ou discutiu acerca deste elemento central para a vida da pessoa cristã. Por isto mesmo o assunto “fé” é difícil de ser trabalhado, definido e sistematizado. E, na atualidade posmoderna, parece haver uma total desorientação no que tange ao tema “fé”.

Muitos têm medo de pensar e refletir acerca da fé, pois querem apenas lidar com suas certezas comprováveis. Outros buscam esconder-se apenas em seus questionamentos céticos e cínicos, porquanto compreendem que a fé deve ser questionada desde a razão pura ou lógica. Para ambos cabe afirmar que a fé é uma experiência existencial.

Conforme um famoso teólogo, “fé é estar possuído por aquilo que nos toca incondicionalmente.” De tal modo, a fé move, abala e transforma todo o nosso ser. Ela é um elemento que atinge o nervo central de nossa existência, transformando-nos por completo.

Justamente por nos tocar incondicionalmente, a fé nos faz lidar com duas esferas necessárias e vitais: a certeza e a dúvida.

Ter fé não exclui nenhuma das duas possibilidades. Estas duas afirmações convivem mutuamente em nossa necessidade de relacionamento com Deus. Elas podem existir conjuntamente, pois a fé é uma certeza de relacionamento direto com o próprio Deus, na consciência de que somos seres finitos ante a presença do infinito. Isto ocasiona a realidade da incerteza.

A certeza e a dúvida podem conviver no âmbito da fé, uma vez que a fé não é obra humana, mas sim divina. A fé não é simplesmente um acreditar por acreditar. Como já foi afirmado, fé é estar possuído por aquilo que nos toca incondicionalmente. A dúvida é necessária à fé, pois ela confirma nossas certezas da fé.

Falando especificamente da certeza: fé é a certeza daquilo que nos toca incondicionalmente. Esta certeza não depende de provas, sistemas teóricos ou pesquisas. A certeza que a fé produz é condicionada simplesmente pelo autor dela em nós, a saber, o próprio Deus.

Deus, em sua ação justificadora e santificadora, por meio de Cristo, gerou a fé em sua criatura redimida. As características dessa fé, isto é, a certeza e a dúvida, estão nisto implicadas. Biblicamente, Hebreus 11.1 aponta para isto ao expressar que “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se vêem.Martim Lutero, reformador da igreja cristã, soube lidar com estas esferas inseparáveis da fé ao dizer que “aquele que não tem dúvidas acerca de sua fé, este não tem fé.

Fé é obra de Deus em nós para efetuar a promessa de salvação por graça. Fé é estar possuído por aquilo que nos toca incondicionalmente. Somos passivos nesta ação divina. Mas, esta obra divina nos convida para a “passibilidade ativa”, pois a fé é ativa no amor.

A fé é aquilo que nos toca total e incondicionalmente. Ela é a espinha dorsal de nossa existência. Nós não existimos e não conseguimos resistir sem a fé. No assunto fé, tanto razão quanto emoção estão implicadas.

Portanto, ante as dúvidas e certezas da fé, Deus nos toca, convida, motiva e vocaciona para “viver a fé”. Vivendo a fé que Deus nos concede, somos sempre e cotidianamente rejuvenescidos – uma Comunidade Jovem - e, por conseguinte, uma Igreja Viva em fé e amor. Amém!
                                                                                                  Marcelo Peter